O mercado brasileiro de trigo atravessa um cenário de forte turbulência agronômica e comercial na largada da colheita da safra 2026. De acordo com o relatório setorial da TF Agroeconômica, o excesso de umidade e a persistência de dias chuvosos nas principais regiões produtoras — reflexos diretos da dinâmica climática no Sul e Sudeste — comprometeram a qualidade industrial dos lotes recém-colhidos, provocando uma disparada nos preços do mercado disponível. A escassez de trigo padrão pão levou os moinhos a realizarem ofertas entre R$ 1.550 e R$ 1.600 por tonelada FOB no Paraná e até R$ 1.650 CIF em São Paulo.
Em São Paulo, onde cerca de 35% da área já foi colhida, os relatos de campo indicam perdas generalizadas por molhamento. As entregas de contratos fechados antecipadamente apresentaram índice de Falling Number (tempo de queda) severamente degradado, situando-se frequentemente entre 80 e 120 segundos, o que inviabiliza a moagem para panificação padrão. No Paraná, o Deral aponta 58% das lavouras em maturação e 20% colhidas, com o norte e o oeste registrando espigas com PH rebaixado para a faixa de 72 a 73 e ocorrência agressiva de brusone e giberela. No Rio Grande do Sul, a colheita pontual no noroeste também tem revelado grãos chochos e problemas fúngicos.
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Déficit estrutural no bloco regional
O agravamento das condições de campo no Brasil coincide com um balanço extremamente restrito na América do Sul:
Encolhimento no Mercosul: O bloco regional (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) projeta uma produção conjunta de 29,62 milhões de toneladas para o ciclo 2026/27, retração de 22,69% frente à safra anterior;
Recuo na Argentina e Paraguai: A colheita argentina deve recuar para 21 milhões de toneladas (-24,8%), enquanto a área plantada no Paraguai caiu 30% em dois anos;
Pressão de importação: Com a menor oferta de vizinhos e a perda qualitativa interna, os moinhos brasileiros tendem a balizar os preços físicos diretamente pela paridade de importação, que supera R$ 1.680/t para o produto do Mercosul e passa de R$ 1.800/t para origens do Hemisfério Norte.
Derivados e mercado futuro
Diante do encarecimento do grão limpo, os moinhos iniciaram repasses nas tabelas de farinhas industriais e de panificação, com reajustes consolidados entre 5% e 8% nas praças de Santa Catarina e Paraná. No mercado de subprodutos, o farelo de trigo opera com estoques mais enxutos no Sul, batendo até R$ 1.100/t no produto ensacado no Rio Grande do Sul e R$ 950/t a granel no oeste paranaense.
Em contrapartida à pressão no físico doméstico, os contratos de trigo brando (SRW) na Bolsa de Chicago (CBOT) acumularam queda semanal de 3,64%, fechando o vencimento de dezembro a US$ 7,14 por bushel. Conforme destaca a análise da TF Agroeconômica, o descolamento entre a correção externa e a alta dos preços internos abriu oportunidades para moinhos e cooperativas realizarem operações de proteção (hedge), travando margens operacionais contra novas escaladas de preço.
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