O ritmo de tomada de recursos atrelados a metas ambientais e práticas conservacionistas perdeu fôlego no início do atual ano agrícola. As contratações de crédito rural vinculadas à sustentabilidade no âmbito do Plano Safra 2026/27 recuaram de R$ 21,1 bilhões para R$ 17,5 bilhões nos três primeiros meses da temporada (uma contração de R$ 3,6 bilhões) frente a igual período do ciclo anterior. O diagnóstico consta no boletim trimestral Crédito Rural em Jornada de Sustentabilidade, estruturado pela consultoria Agroicone com base em dados oficiais do Sistema de Operações de Crédito Rural e do Proagro (Sicor), gerido pelo Banco Central.
O recuo no segmento verde não é um caso isolado, mas sintoma de um desaquecimento abrangente em todo o sistema de financiamento agropecuário. De acordo com o relatório, o crédito rural total liberado no primeiro trimestre da safra 2026/27 somou R$ 80,7 bilhões — retração de 28,8% na comparação direta com os R$ 113,4 bilhões computados em idêntico período da temporada 2025/26. O volume de contratos também encolheu: foram 562 mil operações no trimestre, frente a 717 mil no ano anterior.
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Retração atinge pequenos produtores e aprofunda queda entre médios e grandes
A escassez de recursos deixou de afetar unicamente os médios e grandes produtores comerciais e passou a comprometer a base da agricultura familiar. No âmbito do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), o montante contratado no primeiro trimestre ficou em R$ 22,7 bilhões distribuídos em 480 mil operações — patamar inferior aos R$ 23,9 bilhões e 591 mil contratos formalizados no mesmo intervalo da safra passada.
No segmento não familiar (operações fora do escopo do Pronaf), a curva descendente é ainda mais contundente e reflete uma perda estrutural de fôlego que se arrasta por safras consecutivas. O volume financeiro contratado no primeiro trimestre despencou de expressivos R$ 140,9 bilhões no ciclo 2023/24 para R$ 58 bilhões na temporada 2026/27. Em termos operacionais, o total de contratos emitidos desabou de 194 mil para 81,5 mil nesse mesmo intervalo.
Deterioração da carteira e salto da inadimplência
A retração generalizada nos desembolsos bancários está diretamente ligada à deterioração da saúde financeira das propriedades e ao aumento da aversão a risco por parte das instituições financeiras. O estudo complementar Raio-X do Crédito Rural Problemático, conduzido pela própria Agroicone, revela que o saldo total de operações classificadas como problemáticas — que englobam créditos prorrogados, renegociados, em atraso ou inadimplentes — saltou de R$ 34,1 bilhões em julho de 2023 para R$ 188,8 bilhões em abril de 2026.
No mesmo período, a inadimplência efetiva registrada nas instituições financeiras experimentou uma escalada de dez vezes, saltando de R$ 3,8 bilhões para R$ 38,4 bilhões. Esse estrangulamento da capacidade de pagamento impõe travas burocráticas mais rígidas para novos desembolsos, comprometendo a liquidez necessária para investimentos em transição agroecológica e mitigação climática no campo brasileiro.
