Segundo análises divulgadas no informativo especializado da consultoria TF Agroeconômica, o mercado global de trigo encerrou mais uma sessão com viés negativo nas principais bolsas dos Estados Unidos. Na Bolsa de Mercadorias de Chicago (CBOT), o contrato com vencimento para dezembro do trigo brando SRW recuou 0,93% (-5,75 cents/bushel), negociado a US$ 610,25, acompanhado por perdas no trigo HRW de Kansas City (-1,29% a US$ 650,50) e em Minneapolis (-0,87% a US$ 628,50).
A pressão externa decorre do ritmo acelerado de semeadura das lavouras de inverno norte-americanas — que atingiram 76% da área estimada pelo USDA —, de estoques acumulados e da valorização do dólar ante o euro, embora na Euronext de Paris os contratos tenham subido 0,88% para € 228,50 por tonelada em função das tensões militares e logísticas na bacia do Mar Negro.
Trigo atinge maior preço real do ano no país com oferta restrita
Brasil deve importar até 10 milhões de t de trigo em 2027
Em sentido divergente ao exterior, a realidade produtiva no Brasil enfrenta um cenário crítico de abastecimento interno. De acordo com dados semanais da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) reunidos pela TF Agroeconômica, a colheita nacional do grão atingiu 57,3% da área apta, superando a média histórica de 52,7% para esta época do ano. Apesar do avanço das colheitadeiras, o quadro fitossanitário e qualitativo do cereal gera forte apreensão entre triticultores e indústrias.
Qualidade em xeque e mercado fracionado no Paraná
Nas lavouras do Paraná, chuvas intensas e recorrentes no fechamento do ciclo causaram atrasos na colheita e deterioração direta dos grãos maduros no campo. Relatos compilados pela consultoria apontam rumores de que apenas 800 mil toneladas do cereal colhido no estado atingirão as especificações técnicas exigidas para a classificação do Tipo 1 (panificação), quadro que pode forçar os moinhos locais a suprirem um déficit entre 1 milhão e 2 milhões de toneladas por meio de importações.
Com grande ocorrência de trigo brotado e quedas acentuadas de peso hectolítrico (PH), os negócios paranaenses operam de forma extremamente estratificada. Enquanto os raros lotes de Tipo 1 são cotados nominalmente a R$ 1.650,00 por tonelada para pagamento em meados de novembro, o Tipo 2 é negociado a R$ 1.450,00 e o Tipo 3 recua para a faixa de R$ 1.200,00 CIF. Na ponta dos subprodutos e descartes, tradings realizam compras de trigo ração com PH 72 na faixa de R$ 1.100 a R$ 1.150 CIF portuário.
Dólar valorizado e custos de importação no Sul
No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, as consequências climáticas e macroeconômicas seguem a mesma diretriz. As lavouras gaúchas apresentam indicadores de baixo Falling Number (número de queda) e presença da micotoxina desoxinivalenol (DON), o que leva os poucos ofertantes com padrão comercial a elevar as pedidas de venda.
A severa desvalorização do Real observada após o processo eleitoral agravou os custos fabris do parque moageiro da Região Sul. Em Santa Catarina, a consultoria calcula que a disparada do dólar encareceu o produto importado em cerca de R$ 170 por tonelada. O cenário ganha peso diante da estimativa da Epagri, que prevê uma redução de 37% na safra catarinense (estimada em 243 mil toneladas), resultante da queda de 35% na área cultivada. Com as paridades internacionais infladas pelo câmbio — com negócios de trigo argentino cotados entre US$ 300 e US$ 320 por tonelada posta —, a indústria nacional opera com margens pressionadas para assegurar a matéria-prima dos próximos meses.
