O excesso de precipitações registrado ao longo do mês de setembro provocou perdas irreversíveis na triticultura paulista, comprometendo gravemente a produção e o padrão comercial do cereal. A constatação dominou a terceira e última reunião ordinária do ano da Câmara Setorial do Trigo de São Paulo, realizada de forma híbrida nesta quinta-feira (29) na sede da Cooperativa Castrolanda, no Entreposto Itaberá (SP). O levantamento setorial aponta que a safra estadual não deverá alcançar sequer 20% das 350 mil toneladas inicialmente projetadas para o ciclo.
O agravamento do quadro decorre do volume pluviométrico atípico concentrado justamente no momento em que as lavouras entravam em ponto de corte. Em determinadas praças produtoras, os pluviômetros acumularam 629 milímetros em setembro. Como consequência direta do encharcamento dos grãos na espiga, a classificação tecnológica foi severamente depreciada: a estimativa atual da cadeia é de que apenas 10% a 15% do volume colhido preencha os requisitos para ser classificado como trigo Tipo 1, próprio para o setor de panificação.
Défice de qualidade no trigo deve elevar importações a 9,5 mi de t
Chuva prejudica trigo nacional e alta do dólar encarece importação
“A previsão de que a safra não seria boa se confirmou. Mas, pelos relatos que ouvimos aqui, a situação se agravou e foi pior do que o esperado. A expectativa era colher cerca de 350 mil toneladas, mas não chegaremos nem a 20% desse volume”, lamentou o presidente da Câmara Setorial, Ruy Zanardi.
Articulação com moinhos e cenário econômico desafiador
Apesar do tombo na oferta de grão com padrão panificável, o Sindicato da Indústria do Trigo no Estado de São Paulo (Sindustrigo) reiterou que o parque moageiro continuará absorvendo o produto local dentro das possibilidades técnicas. Durante o encontro, lideranças destacaram a articulação em andamento para a edição de uma Medida Provisória pelo governo federal com foco na repactuação de dívidas e socorro emergencial aos produtores rurais prejudicados.
O presidente do Sindustrigo, Max Piermartiri, alertou que os efeitos econômicos da quebra exigirão planejamento de longo prazo. “O caminho daqui para frente será difícil. Ainda enfrentaremos desafios nesta safra de 2026/2027, em um cenário econômico que pode continuar complicado em 2027 e até 2028. Precisamos fortalecer a aproximação entre a produção agrícola e a indústria moageira”, ressaltou.
O vice-presidente da Câmara Setorial e anfitrião do encontro, José Reinaldo, endossou a necessidade de preservar as estruturas produtivas: “Essa foi uma safra bem diferente das demais, com grandes desafios pela frente, mas seguimos firmes e confiantes na capacidade de recuperação da triticultura do estado de São Paulo”.
Salto de qualidade e avanço no ciclo 2025/2026
O revés climático interrompe temporariamente um ciclo virtuoso do cereal paulista. Durante o encontro, Ruy Zanardi apresentou os dados da pesquisa de avaliação do trigo estadual na temporada 2025/2026, que apontou um crescimento de 45,3% nas aquisições pelas indústrias associadas ao Sindustrigo, saltando de 403,5 mil para 586,3 mil toneladas.
O índice de satisfação geral das moageiras atingiu a nota média de 8,9 em 2026 (frente a 7,9 em 2025), com melhorias substanciais nos parâmetros de cor (subindo de 6,6 para 7,9), sanidade (de 8,0 para 8,6) e homogeneidade (de 6,5 para 7,3). No último ano-safra, o trigo paulista foi destinado principalmente à produção de pães (48,9%), farinhas para uso doméstico (33,8%) e massas alimentícias (11,5%), além de biscoitos, pães industriais e congelados. Na comparação direta, a avaliação do cereal paulista superou o produto argentino em praticamente todos os atributos, reflexo de melhorias agronômicas em solo paulista e oscilações qualitativas nas cargas importadas.
Panorama internacional e reorganização setorial
A conjuntura internacional foi detalhada pelo analista Fabio Cruz, da consultoria StoneX. Os números globais apontam produção de 882 milhões de toneladas frente a um consumo de 824 milhões de toneladas, com os preços balizados pela recuperação das exportações da Rússia e da Ucrânia e pela lentidão dos embarques dos Estados Unidos. Para a Argentina, projeta-se que os embarques externos não alcancem 19 milhões de toneladas, mantendo o balanço entre oferta e demanda dependente das movimentações no Mar Negro. No caso brasileiro, as variações cambiais recentes encareceram tanto importações quanto exportações.
Para estruturar a resposta aos gargalos da triticultura, o coordenador das Câmaras Setoriais e Temáticas da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, Felipe Camargo, apresentou o novo modelo de governança do setor. O projeto estabelece cronogramas anuais institucionalizados com metas mensuráveis, acompanhamento sistemático de resultados e interlocução contínua entre produtores, cooperativas e moinhos para ampliar a resiliência financeira da cadeia paulista.
