No ano de 2025 aumentou consideravelmente o número de produtores rurais que acumulam prejuízos com calotes de cerealistas no Brasil, como a cerealista Fruet, no PR, e a Cerealista Result, no MS
O "modus operandis" é o mesmo: oferece-se vantagens como valores acima do mercado e recepção dos cereais em qualquer horarío para atrair os produtores rurais a armazenarem sua produção. O segundo ato é dispensar funcionários, vender os grãos armazenados e desaparecer sem deixar vestígios. Em 2025, o número de casos de golpes de cerealistas vem trazendo preocupação para o setor.
Foi o que aconteceu a pelo menos 30 produtores rurais do Mato Grosso do Sul que tiveram sérios prejuízos financeiros após a falta de pagamento da Cerealista Result e com quase 200 produtores rurais do Oeste do Paraná que tiveram a mesma "sorte" com o Cerealista Fruet, do município de Campo Bonito.
Mais episódios semelhantes recentemente envolveram outras empresas, como a Granosul, do MS, que entrou com pedido de recuperação judicial. Também houve o caso da cerealista AGM, que também teria gerado prejuízo aos produtores na safrinha passada.
Os prejuízos com a Cerealista Consult no MS já somam cerca de R$ 25 milhões, podendo ser ainda maiores à medida que novos casos forem registrados. Somente cinco produtores ingressaram com ações judiciais, mas há relatos de ao menos 30 agricultores já afetados.
No Paraná, o golpe da Cerealista Fruet, que foi comprado pela Copacol, contra agricultores em Campo Bonito já chega a R$ 22 milhões, com 109 vítimas que registraram queixa. Com as investigações avançando e a confimação que Celso Fruet encontra-se foragido, foi expedido um mandado de prisão contra o empresário.
Muitos produtores realizaram a entrega da soja com base em acordos verbais ou promessas contratuais não assinadas. Os casos envolvem notas de compra de insumos e romaneios de recebimento como prova, mas os contratos em si não foram formalizados.
E porquê esses cerealistas não entram na Justiça com pedido de recuperação judicial, em vez de aplicar o golpe? Geralmente a maioria do patrimônio da empresa já está sob alienação fiduciária por parte de alguma instituição financeira, impedindo que a empresa entre com pedido de recuperação judicial — um dos instrumentos jurídicos mais comuns para empresas em crise tentarem reorganizar suas finanças.
Ou seja, a situação não acontece da noite para o dia e reflete, além de má administração, as dificuldades que o setor anda passando nos últimos anos. "Um cerealista é como um banco, onde, em vez de dinheiro, o produtor deposita seus grãos, que são sua moeda", afirmou ao portal RuralNews um proprietário de armazém que não quis ter sua identifidade revelada.
"Porém, assim como um banco, quando uma empresa de armazenagem quebra, não tem muito o que se fazer a não ser contabilizar os prejuízos, pois mesmo contratos e documentos não vão trazer os grãos de volta", alerta, afirmando que confiança ainda é a base do negócio.
Segundo dados da Serasa Experian, o número de pedidos de recuperação judicial no agronegócio disparou em 2025. As estatísicas refletem o aumento da pressão sobre produtores diante de margens apertadas, inadimplência e desequilíbrios financeiros. Somente no primeiro trimestre de 2025 foram registradas 389 solicitações de recuperação judicial, o que representa uma alta de 21,5% em relação ao trimestre anterior e de 44,6% na comparação anual.
O que resta ao produtor rural é usar critérios mais rígidos na hora de escolher a cerealista para armazenar sua produção. Cada vez mais, fazer uma avaliação criteriosa da idoneidade das empresas do setor.Diante desse cenário, negociar sem uma segurança contratual, sem conhecer o histórico da cerealista e sem exigir garantias reais é um risco que pode custar anos de trabalho.
As recuperações judiciais tem nos produtores rurais pessoa física a maioria dos pedidos. em 2025, foram 195 recuperações judiciais entre janeiro e março, contra 140 no trimestre anterior e 106 no mesmo período de 2024 — um crescimento expressivo que acende o sinal de alerta em todo o setor.
Na estatística dos Estados, o Mato Grosso lidera o ranking de produtores pessoas físicas que buscaram a justiça para renegociar suas dívidas, com 50 pedidos de RJ no trimestre. Em seguida aparecem Goiás, com 38 solicitações, e Minas Gerais, com 31.
Tudo isso só destaca o ambiente de instabilidade financeira vivido pelo setor. Os produtores menores são os maiores atingidos, pois têm enfrentado não apenas os riscos climáticos e oscilações de mercado, mas também dificuldades de acesso a crédito, inadimplência de compradores e falhas contratuais.
As vítimas dos golpes só têm dois caminhos a seguir: o civil e o criminal. Entrar na Justiça para que a conduta da empresa seja investigada como possível estelionato e tentar buscar o arresto dos grãos ou outros ativos. Porém, muitas vezes, as empresa que praticam o golpe já não tem mais nada em seu nome.