A intensificação do fenômeno El Niño projeta um cenário de elevado risco operacional para o agronegócio nos próximos meses. No Paraná, a força das intempéries já se manifesta de forma dramática no campo, como relata a produtora Leticiane Flugel, de Piraí do Sul, que viu a estufa recém-erguida com 4 mil pés de morango ser varrida por um tornado categoria F3: "O sentimento é horrível: você perde uma vida em cinco segundos. A gente assistia pela televisão, mas não imaginava o peso do sentimento que fica quando passa por essa situação". Com estragos na residência, no veículo e na lavoura que totalizaram R$ 20 mil de prejuízo imediato, a família, desprovida de seguro, dependeu da solidariedade de vizinhos para recompor o teto e reiniciar a atividade.
O drama retrata um padrão climático que tende a se tornar recorrente. De acordo com o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), com dados da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há mais de 90% de probabilidade de o El Niño atingir intensidade forte, caracterizado por temperaturas oceânicas no mínimo 2 graus acima da média. O pico do aquecimento está projetado entre outubro e dezembro, exercendo efeitos sobre o clima regional até o encerramento do primeiro trimestre de 2027.
Embrapa indica manejo conservacionista contra o El Niño
El Niño tem mais de 90% de chance de atingir intensidade máxima na primavera
O meteorologista do Simepar, Reinaldo Kneib, explica que a anomalia térmica no Pacífico altera o padrão de circulação continental:
"Como a dinâmica já é mais chuvosa, com uma frequência maior de tempestade, o El Niño deixa ainda mais instável. Nós podemos ter uma frequência maior de vento, tempestade, dias chuvosos, com mais dias consecutivos com chuva."
A instabilidade recorrente já produziu episódios extremos, como o tornado F3 que superou 300 km/h em Piraí do Sul e outro de categoria F4 registrado em Rio Bonito do Iguaçu. Diante da severidade dos dados, lideranças do setor rural enfatizam que o poder público precisa assegurar uma política de seguro rural financeiramente viável, garantindo que o agricultor não enfrente eventos de grande porte desarmado e sem cobertura financeira.
Prejuízos agronômicos e restrições nas apólices
O agrônomo Bernardo Lipski, também do Simepar, adverte que o monitoramento meteorológico diário deve nortear as tomadas de decisão na fazenda. Diante de alertas severos, a orientação agronômica é suspender pulverizações de defensivos e trânsito de máquinas, recolher rebanhos e veículos para abrigos protegidos e manter distância de estruturas metálicas ou árvores isoladas.
Os impactos do El Niño afetam diretamente a transição de duas temporadas agrícolas:
Culturas de inverno em colheita: O excesso de umidade na fase final favorece a incidência de grãos avariados, fungos e doenças de espiga em trigo e cevada, depreciando a qualidade para panificação e malte, perda mercadológica que não conta com cobertura nas apólices vigentes;
Safra de verão (soja e milho): Chuvas torrenciais provocam erosão em talhões recém-semeados, lavando sementes e demandando ressemeaduras custosas. Além disso, a cobertura contínua de nuvens retarda o ciclo vegetativo e amplia a pressão da ferrugem asiática, multiplicando os custos com fungicidas;
Encarecimento da proteção: O aumento da sinistralidade faz com que as companhias seguradoras restrinjam a oferta e aumentem o valor dos prêmios, agravando o gargalo financeiro causado pela escassez de subvenção pública.
Rastro de perdas financeiras no interior
A violência dos fenômenos mobiliza a Defesa Civil. Em 2025, os eventos climáticos atingiram 273 mil pessoas e somaram R$ 1,9 bilhão em prejuízos no estado paranaense, com oito tornados isolados respondendo por R$ 104,5 milhões em perdas. Em Rio Bonito do Iguaçu, o produtor Juliano Jurisch amarga danos que ultrapassam R$ 2,5 milhões após um tornado destruir quatro barracões, maquinários, casas e uma moega com capacidade para 3 mil sacas de grãos. Até agosto de 2026, outras 272 ocorrências extremas já geraram cerca de R$ 860 milhões em perdas financeiras no estado.
Diante de sinistros, especialistas recomendam que os produtores fotografem e filmem minuciosamente os estragos antes de qualquer limpeza, lavrem boletim oficial na Defesa Civil ou prefeitura e acionem formalmente corretores ou gerentes bancários para a emissão de protocolos, etapa documental indispensável para viabilizar laudos, ressarcimentos de rede elétrica e prorrogações de custeio agrícola.
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