No bioma Cerrado, onde o rendimento das lavouras de grãos depende intrinsecamente da regularidade pluviométrica, a aproximação de um evento de El Niño de alta intensidade recoloca o balanço hídrico no centro das atenções agronômicas. Diante do risco de descompasso nas chuvas, pesquisadores da Embrapa Cerrados alertam que a convergência entre o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) e o manejo conservacionista do solo é a principal via para mitigar perdas econômicas e conferir resiliência aos sistemas agrícolas.
O fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENOS) decorre do acoplamento oceano-atmosfera no Pacífico Equatorial. Conforme dados analisados pelo pesquisador Fernando Macena, da Embrapa Cerrados (DF), o Índice Oceânico Niño (ION) alcançou o patamar de +1,4°C em junho de 2026, consolidando a tendência de alta térmica. Múltiplas projeções indicam que anomalias na superfície marítima podem ultrapassar +2,5°C, desenhando um evento de magnitude extrema.
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No Cerrado, esse padrão climático costuma deflagrar três gargalos severos:
Atraso na abertura das chuvas: Desorganização do calendário ideal para a implantação da cultura de verão;
Veranicos prolongados: Estiagens severas em fases críticas de florescimento e enchimento de grãos;
Compressão da safrinha: Encurtamento da janela operacional de semeadura do milho, sorgo ou algodão, expondo as segundas safras à seca precoce de outono e inverno.
Ciência do solo comprova eficácia do plantio direto
Simulações realizadas com o modelo computacional Stics avaliaram séries históricas de 50 anos (1975 a 2024) sobre a cultivar de soja BRS 8383IPRO em quatro polos produtores: Cuiabá (MT), Rio Verde (GO), Planaltina (DF) e Barreiras (BA). Os resultados demonstraram que as maiores quebras de rendimento ocorrem nas semeaduras precipitadas de setembro e outubro, sob o manejo convencional.
A aração e a gradagem deixam o perfil desprotegido, elevando a temperatura do leito de cultivo e acelerando a evaporação. Em contrapartida, o Sistema Plantio Direto (SPD) garantiu desempenhos produtivos superiores em todos os cenários simulados. A presença de palhada preserva a umidade, regula o microclima e atenua o estresse radicular.
Os quatro pilares do plano de ação para a safra
Para transformar incertezas climáticas em riscos gerenciáveis, a Embrapa Cerrados estruturou uma estratégia de contingência operacional ancorada em quatro diretrizes práticas:
Consolidação do SPD e integração: Manutenção rigorosa de cobertura vegetal permanente com palhada, estimulando a adoção de sistemas ILP e ILPF para conter o impacto direto da insolação e das chuvas;
Escalonamento de semeadura: Divisão das áreas entre cultivares de ciclos precoce, médio e tardio para diluir as probabilidades de perdas hídricas generalizadas em um único talhão;
Manejo Integrado de Pragas (MIP): Vistorias sistemáticas das lavouras, visto que períodos secos e quentes aceleram o ciclo reprodutivo de insetos-praga na palhada e na folhagem;
Gestão financeira e ferramentas de proteção: Adequação estrita às janelas do Zarc, combinando travas de custos, instrumentos de hedge de preços e apólices de seguro rural.
Fernando Macena pontua que, sob a vigência de um El Niño severo, a tomada de decisão deve abandonar a intuição. Antes de ligar as plantadeiras, o produtor precisa aguardar a regularização efetiva das precipitações, checar a umidade do solo em profundidade e monitorar os boletins meteorológicos locais para blindar os investimentos de campo.
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