A retração acentuada na safra nacional de trigo e a consequente escalada na necessidade de compras externas colocaram o abastecimento brasileiro e a capacidade de recepção dos terminais portuários no centro dos debates do último dia do 33º Congresso Internacional da Indústria do Trigo, promovido pela Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), no Rio de Janeiro (RJ). O encontro também destacou a relevância do planejamento regulatório preventivo para mitigar riscos comerciais na moagem industrial.
No painel sobre o panorama global, o diretor sênior de Originação e Trading de Trigo da Bunge Alimentos, Tito Marquetti Martinho, projetou que o Brasil precisará importar entre 9,5 milhões e 10 milhões de toneladas de trigo ao longo de 2027.
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"A combinação de menor volume produzido internamente e pior qualidade do cereal amplia a dependência do mercado externo e deve colocar à prova a capacidade portuária brasileira", alertou o executivo da Bunge.
A Argentina permanecerá como a principal parceira de fornecimento para suprir a demanda doméstica. No âmbito mundial, a persistência do conflito bélico na região do Mar Negro segue como foco permanente de volatilidade para fretes, cotações e contratos futuros.
Quebra na colheita e déficit no Sul
O especialista em mercado de trigo Elcio Bento apresentou um diagnóstico detalhado sobre a desidratação da oferta interna. A produção brasileira do cereal está estimada em 5,12 milhões de toneladas, marcando um recuo de 37% frente aos parâmetros de referência. O montante colhido dentro do país será suficiente para cobrir apenas 36% da demanda nacional, obrigando as indústrias moageiras a buscar o restante do volume no exterior.
Além do corte de volume, o padrão reológico e qualitativo das lavouras acende um alerta operacional:
São Paulo: estimativa de apenas 70 mil a 80 mil toneladas classificadas como Tipo 1;
Paraná: com 70% da área colhida na ocasião da análise, o trigo Tipo 1 somava entre 500 mil e 600 mil toneladas.
A retração desestruturou o papel tradicional dos estados sulistas no fluxo interno. O Paraná, que historicamente operava com saldo comercial positivo de 100 mil toneladas, passa a enfrentar um déficit projetado em 1,85 milhão de toneladas. Já no Rio Grande do Sul, o excedente de 4,07 milhões de toneladas encolheu drasticamente, aproximando-se de uma condição de equilíbrio estrito entre consumo e produção.
Para Bento, a eficiência moageira será posta à prova:
"A logística favorecerá os moinhos bem-posicionados e preparados para receber o trigo importado. Já a moagem de trigos nacionais heterogêneos exigirá maior eficiência."
Clima severo castiga lavouras gaúchas
A situação no Rio Grande do Sul foi aprofundada pelo sócio da Solo Corretora de Cereais, Índio Brasil dos Santos. Segundo o analista, o ciclo de inverno enfrentou corte de investimentos em fertilizantes, menor afilhamento e graves entraves fitossanitários decorrentes do clima instável: chuvas contínuas e tempo nublado em julho, frio com precipitações em agosto, chuvas acima da média com geada em 7 de setembro e alternância de umidade excessiva com aberturas rápidas de sol em outubro.
A safra gaúcha mira 1,85 milhão de toneladas, com produtividade média de 2.500 kg/ha. Com 27% da área colhida, as vendas antecipadas travam em torno de 30% do total esperado.
