Pesquisadores da Embrapa Agroindústria Tropical (CE) e da Universidade Federal do Ceará (UFC) desenvolveram um nanofertilizante inovador a partir do caroço do açaí, com capacidade comprovada para acelerar o desenvolvimento de culturas agrícolas. Em testes laboratoriais e de casa de vegetação com as variedades BRS-Gorutuba (milho) e 2502 (sorgo) — ambas voltadas ao semiárido —, doses ultrabaixas do produto (10 mg/L) proporcionaram um aumento de 24% no crescimento relativo do milho e expressivos 164% no sorgo, além de ampliarem o volume radicular em 23% e 59%, respectivamente, fortalecendo a tolerância das plantas à seca.
A tecnologia resolve um dos maiores passivos ambientais da cadeia do açaí: para cada tonelada de frutos processados na extração da polpa, são gerados aproximadamente 700 quilos de sementes, resíduo volumoso que frequentemente se acumula em lixões urbanos ou é queimado como combustível de baixo rendimento térmico.
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Pontos quânticos de carbono: nutrição direta e fotossíntese potencializada
O insumo é produzido pelo método de síntese hidrotermal, no qual o pó da semente de açaí é submetido a altas pressões e temperaturas em reatores. O processo reorganiza as moléculas orgânicas em nanopartículas fluorescentes de cerca de quatro nanômetros, conhecidas como pontos quânticos de carbono (carbon quantum dots).
Segundo o pesquisador da Embrapa Cláudio Carvalho, essas nanopartículas penetram com extrema facilidade nos estômatos e tecidos foliares, entregando micronutrientes no nível celular e atuando como "bioantenas" fotoquímicas:
"Elas funcionam como antenas que captam a radiação ultravioleta e, a partir dela, emitem uma luz azul capaz de estimular o sistema fotoquímico da planta e aumentar a eficiência da fotossíntese. Em comparação com os fertilizantes convencionais, os nanofertilizantes geralmente resultam em menos escoamento superficial e menor contaminação dos solos e corpos dágua, tornando-os potencialmente mais sustentáveis."
Além de entregar minerais essenciais presentes no caroço original, o composto carrega substâncias bioativas que ativam defesas enzimáticas vegetais contra o estresse oxidativo.
Escalabilidade industrial e expansão para novas culturas
Os resultados científicos foram chancelados internacionalmente na revista científica Dyes and Pigments. Conforme explica o professor Pierre Fechine, coordenador do Laboratório do Grupo de Química de Materiais Avançados (GQMat/UFC), o próximo passo é vencer as barreiras de escala:
"Mostramos que um resíduo que normalmente seria descartado pode ser convertido em um material inteligente. Em laboratório, trabalhamos com pequenas quantidades; em uma fábrica, é necessário garantir que cada lote apresente as mesmas propriedades químicas, ópticas e biológicas, além de otimizar custos energéticos e a logística de coleta da biomassa."
O plano de pesquisa prevê a extensão dos ensaios agronômicos para culturas como feijão, batata-doce, abóbora, hortaliças e mudas do próprio açaizeiro, abrindo caminho para um modelo de economia circular que devolve à terra os nutrientes extraídos pela floresta.
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