A frequência ininterrupta de chuvas no Paraná vem provocando atrasos operacionais na semeadura da safra de verão e deteriorando a qualidade do trigo que ainda aguarda colheita nas lavouras. O excesso de umidade desencadeia perdas financeiras imediatas por desclassificação comercial dos grãos, eleva os custos operacionais com pulverizações adicionais e acende o sinal de alerta para um estrangulamento da janela climática da segunda safra de milho em 2027.
O quadro crítico sucede um mês de setembro atípico: em 14 estações meteorológicas monitoradas pelo Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), o volume acumulado de precipitações foi o maior para o mês em mais de 25 anos de série histórica.
Hedgepoint projeta safra recorde de milho no Brasil
Safra cresce em área mas produtividade desafia o produtor
De acordo com o mais recente relatório do Departamento de Economia Rural (Deral), da Seab, o plantio da soja no estado cobriu apenas 39% dos 5,7 milhões de hectares previstos ao final da primeira quinzena de outubro.
"Os prejuízos das chuvas vão além da lavoura, uma vez que aumentam os custos de produção, comprometem a renda e dificultam o planejamento. Por isso, o Sistema FAEP atua na defesa de um seguro rural e de políticas públicas que permitam ao produtor condições de enfrentar essas perdas e manter sua atividade", destaca o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette.
Janela curta de trabalho e isparada nos Custos
No Vale do Ivaí, nos municípios de Manoel Ribas e Ivaiporã, o produtor Marcelo Alberton — que cultiva 87,1 hectares de soja e 43 hectares de trigo — relata que teve apenas seis dias de sol aptos para o trânsito de máquinas desde o início de setembro. Com a impossibilidade de semear as cultivares de ciclo longo no prazo planejado, o agricultor precisou migrar para materiais de ciclo precoce, mas agora observa emergência desuniforme nos talhões. O encharcamento do solo sufoca as raízes e barra a entrada dos pulverizadores para o manejo preventivo de pragas e fungos.
Em Engenheiro Beltrão e Roncador, na região Noroeste, o produtor Mauro César Volponi dos Santos estima um atraso médio de 20 dias no cronograma de plantio. Cultivando 750 hectares de soja e 180 de trigo, ele conseguiu semear apenas 30% da oleaginosa até o momento. Em suas propriedades, uma única semana acumulou 250 milímetros de chuva, gerando erosão, pontos de afloramento de água e lavagem de defensivos.
O revés climático já impõe custos extras: Santos precisará reaplicar herbicidas para controle de buva, com despesa adicional de R$ 200 por hectare. Segundo a coordenadora do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema FAEP, Ana Paula Kowalski, as chuvas intensas podem arrastar sementes recém-depositadas no sulco e elevar expressivamente a pressão de patógenos fúngicos.
Trigo desclassificado e filas nos secadores
No caso do trigo, a exposição prolongada à água no campo provocou a queda acentuada de dois indicadores vitais para a indústria moageira: o peso hectolítrico (PH) e o Número de Queda (Falling Number).
Com a queda desses índices, o cereal perde a aptidão para panificação e é rebaixado comercialmente para outros usos, como a formulação de ração, remunerando o produtor com valores substancialmente menores.
Para agravar a situação, o elevado teor de umidade nos grãos colhidos saturou a capacidade estática de secagem das cooperativas e cerealistas regionais, formando longas filas de caminhões nos pátios, elevando as despesas com frete e paralisando colheitadeiras nas propriedades.
Efeito cascata ameaça a safrinha de 2027
Os reflexos desse descompasso tendem a se prolongar ao longo de todo o ano-safra. Conforme adverte Ana Paula Kowalski, a nebulosidade constante tende a esticar o ciclo vegetativo da soja já implantada, comprimindo ainda mais o calendário de cultivo do cereal sucessor.
Nas áreas de Santos no Noroeste paranaense, onde o plantio do milho safrinha deveria ter início no final de janeiro, as operações deverão ser empurradas para fevereiro e alcançar a primeira quinzena de março. O atraso eleva a vulnerabilidade da cultura a geadas e estiagens no outono de 2027 — um risco crítico para o produtor, cujo milho destina-se ao abastecimento de sua própria granja de suínos.
