A persistência de condições meteorológicas desfavoráveis nas principais regiões tritícolas do país vem impondo severos entraves à colheita e deteriorando a qualidade tecnológica dos grãos colhidos. Segundo levantamento divulgado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a escassez de trigo tipo 1 — padrão exigido pela indústria de panificação e massas — associada à recente valorização do dólar frente ao real tem sustentado as cotações no mercado spot de lotes, contrariando o viés baixista observado nas bolsas internacionais.
Nesse cenário de estresse a campo, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) manteve praticamente inalterada a sua projeção para a safra total de trigo do Brasil no relatório de outubro, na comparação com o levantamento de setembro. No entanto, o órgão promoveu cortes técnicos expressivos nas estimativas regionais, com destaque negativo para São Paulo e Goiás.
Qualidade do trigo no Sul preocupa e pode elevar compras
Trigo paulista avança em padrão mas sofre perdas com clima
O recuo mais acentuado em volume produtivo foi registrado nas lavouras paulistas. O excesso de umidade durante a fase de maturação e dessecação fez com que parcela significativa do cereal colhido não atingisse os parâmetros mínimos de força de glúten (W) e número de queda (falling number), inviabilizando sua comercialização como trigo panificável e direcionando lotes para a formulação de ração animal.
Dependência externa e importações em alta de 15%
Diante da baixa disponibilidade de produto nacional apto para a moagem comercial, os pesquisadores do Cepea ressaltam que os moinhos brasileiros permanecem altamente dependentes do abastecimento internacional para compor seus blends.
A Conab conservou a estimativa de importação de trigo em 7,06 milhões de toneladas para 2026. Se confirmado esse montante ao final da temporada, o volume representará uma alta de 15,1% sobre o total adquirido no exterior ao longo de 2025.
Com o produto interno de qualidade valorizado pela escassez e o trigo importado encarecido pelo câmbio, o setor de moagem opera com custos pressionados, sustentando a firmeza nos preços da farinha no atacado.
