Com a safra nacional de milho estimada em 141,7 milhões de toneladas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a rentabilidade da cultura depende diretamente do padrão de qualidade entregue nas moegas. A expansão da indústria de etanol de milho, aliada às exigências da nutrição animal e humana, elevou o rigor na classificação comercial. Nesse contexto, os grãos ardidos, resultantes do complexo de podridões de espiga, consolidam-se como um dos principais gargalos fitossanitários do cereal, drenando margens mesmo em áreas de alto potencial produtivo.
Segundo parâmetros técnicos da Embrapa, são classificados como ardidos os grãos que apresentam descoloração em pelo menos um quarto de sua superfície, exibindo tons que variam do marrom-claro e escuro ao vermelho e arroxeado. O sintoma não decorre de dessecação excessiva, mas da colonização biológica dos tecidos por microrganismos patogênicos que, além de deteriorarem a matéria orgânica, produzem micotoxinas altamente prejudiciais à saúde humana e de rebanhos.
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De acordo com José Carlos Madalóz, gerente de agronomia da Pioneer, marca de sementes da Corteva Agriscience, para o Brasil e Paraguai, o problema começa no campo e decorre da interação entre o patógeno, o híbrido, o ambiente e as práticas culturais. Agentes dos gêneros Fusarium e Stenocarpella, além de Gibberella zeae (Fusarium graminearum), sobrevivem em restos culturais e palhada entre uma safra e outra, disseminando-se por respingos de chuva e correntes de vento até as estruturas reprodutivas. Danos provocados por insetos mastigadores também agravam o cenário ao criarem portas de entrada para a penetração de esporos e umidade.
Sintomas regionais e o alerta da podridão-salmão
O comportamento da doença varia conforme as condições climáticas locais, exigindo diagnóstico apurado de campo:
Podridão-branca (Stenocarpella): Provoca apodrecimento da base ou ponta da espiga com formação de micélio esbranquiçado, causando forte perda de peso dos grãos;
Podridão-rosada e vermelha (Fusarium): Avançam frequentemente a partir de aberturas na espiga, desenvolvendo massas fúngicas cotonosas de tom avermelhado;
Ocorrência de podridão-salmão: Na safrinha de 2026, a Fundação Rio Verde identificou o patógeno em 16,5% das amostras de milho analisadas em regiões do norte de Mato Grosso e de Rondônia;
Pressão climática no Paraná: O clima úmido e ameno no enchimento de grãos, somado ao plantio direto contínuo sobre restolhos de trigo e cereais de inverno, mantém os fungos ativos no solo e eleva o risco de penalizações financeiras impostas por cooperativas locais.
Tríplice impacto econômico na fazenda
O prejuízo financeiro causado pelos grãos ardidos manifesta-se em três frentes complementares:
Dano quantitativo: Redução direta no peso hectolítrico e falhas no enchimento dos grãos infectados;
Dano qualitativo: Perda substancial de valor nutricional, proteico e sanitário da massa de grãos;
Dano comercial: Aplicação de pesados descontos contratuais no recebimento, desclassificação de lotes e até recusa total para processamento industrial.
Especialistas alertam, contudo, que uma incidência de 10% de grãos ardidos na amostra não representa perda equivalente a 10% da colheita física, configurando primordialmente uma desvalorização da mercadoria.
Pilares do manejo preventivo e integrado
Como a infecção fúngica frequentemente ocorre durante o florescimento e a maturação sem manifestar sinais imediatos, não existem ferramentas químicas de choque para reverter grãos já danificados. O controle exige a implementação de um sistema preventivo contínuo.
A base do manejo começa no planejamento pré-semeadura, priorizando a seleção de híbridos que associem teto produtivo a estabilidade fitossanitária, bom empalhamento protetor e tolerância regional a doenças de espiga. O manejo nutricional equilibrado evita estresses vegetativos, enquanto o combate rigoroso a lagartas impede a abertura de ferimentos que servem de porta de entrada para a umidade e os fungos.
Por fim, a colheita no ponto certo de maturação impede que o milho maduro permaneça exposto a chuvas tardias na lavoura, completando a barreira contra a proliferação das micotoxinas.
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