O mercado de commodities agrícolas enfrentará um encerramento de ano marcado pela intensificação de choques climáticos e por um cenário macroeconómico adverso. De acordo com o relatório trimestral de perspetivas da Hedgepoint Global Markets, o fortalecimento do El Niño deve ampliar os riscos produtivos no quarto trimestre de 2026 e nos primeiros meses de 2027. O documento alerta que o evento climático apresenta mais de 77% de probabilidade de operar em patamar muito forte entre agosto e outubro, probabilidade que sobe para mais de 90% na janela entre outubro e janeiro de 2027.
O ambiente externo, contudo, atuará como um contrapeso de resistência às valorizações em bolsa. A projeção de um dólar norte-americano valorizado, juros reais elevados e uma postura monetária mais austera por parte do Federal Reserve (Fed) tende a retrair o ímpeto especulativo dos fundos de investimento e a conter a procura global por matérias-primas.
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A distribuição dos impactos climáticos sobre a produção desenha-se de forma bastante assimétrica entre as principais regiões do planeta:
Açúcar e cacau: oferta global ameaçada pelo excesso e falta de chuva
No complexo sucroenergético, as chuvas contínuas no Centro-Sul do Brasil prejudicam o ritmo da colheita e reduzem a concentração de Açúcar Total Recuperável (ATR), limitando a eficiência operacional das usinas. Do outro lado do globo, secas e calor intenso na Tailândia e na Índia — onde há forte probabilidade de necessidade de importações de açúcar entre o fim de 2026 e o início de 2027 — mantêm o suporte altista, que só não atinge patamares superiores devido à procura internacional fragilizada. Na Indonésia, o atraso no ciclo chuvoso compromete o rebrote das soqueiras para 2026/27.
Para o cacau, a vulnerabilidade produtiva concentra-se na África Ocidental, castigada por calor atípico e seca, contrastando com as precipitações abundantes registradas nas lavouras do Equador.
Café: safra recorde no brasil pressiona cotações futuras
Diferente do comportamento do adoçante, o mercado internacional de café passa a sentir a pressão de baixa decorrente da colheita recorde brasileira da safra 2026/27. A chegada física dos lotes aos armazéns arrefece o prémio de escassez observado no trimestre anterior, complementada por condições meteorológicas favoráveis ao pegamento das floradas e à estruturação da safra 2027/28 no parque cafeeiro do Brasil.
Ainda assim, a volatilidade não deve desaparecer por completo. A Hedgepoint alerta para riscos residuais de tempo seco e quente em importantes regiões produtoras da Colômbia e do Sudeste Asiático, que operam com stocks de destino bastante enxutos.
Grãos, oleaginosas e o gargalo global de refino de combustíveis
No complexo de grãos, o balanço de oferta e procura garante sustentação às cotações:
Soja: Encontra suporte no avanço do mandato de mistura de biodiesel nos Estados Unidos e na aceleração das encomendas chinesas da safra norte-americana, enquanto o mercado monitora o início da semeadura sob clima irregular na América do Sul;
Milho: As vendas externas firmes dos Estados Unidos associadas a uma colheita menor no país e aos bloqueios de escoamento no Mar Negro sustentam as posições em Chicago;
Trigo: A condição insatisfatória das lavouras de inverno nos Estados Unidos, a quebra de safra no Hemisfério Norte e os atrasos na colheita por excesso de chuva na Argentina dão fôlego às cotações internacionais.
No setor energético, a consultoria aponta que o foco de tensão deixou de ser o fornecimento de óleo bruto e deslocou-se diretamente para o parque de refino. Com o tráfego bloqueado no Estreito de Ormuz, capacidade operacional desativada no Médio Oriente e ofensivas militares contra refinarias russas, o crack spread do diesel bateu marcas recordes acima de US$ 100 por barril, encarecendo os custos operacionais e de frete de todo o agronegócio internacional.
