O complexo da soja registou um comportamento atípico de forte descolamento entre os seus dois principais derivados na Bolsa de Mercadorias de Chicago (CBOT), de acordo com dados compilados pela consultoria TF Agroeconômica. Enquanto os contratos futuros do farelo de soja dispararam mais de 3%, o óleo de soja percorreu a trajetória oposta e despencou mais de 3%. O movimento divergente impacta de forma direta a formação dos preços nas indústrias esmagadoras e cooperativas brasileiras, alterando a composição das margens de processamento.
A sustentação para a alta do farelo decorre dos dados oficiais divulgados pelo Censo norte-americano. As exportações de farelo de soja dos Estados Unidos atingiram o recorde mensal histórico de 1,366 milhão de toneladas em agosto, provocando uma onda de compras técnicas e cobertura de posições vendidas. Na posição de outubro, o farelo fechou cotado a US$ 365,90 por tonelada curta (+3,54%) e o contrato de dezembro avançou US$ 12,13, alcançando US$ 403,22 por tonelada métrica.
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Em sentido contrário, o óleo de soja sofreu forte liquidação financeira. O vencimento de outubro caiu 3,10%, cotado a 67,42 cêntimos por libra-peso, enquanto o contrato de dezembro perdeu US$ 49,16, recuando para US$ 1.492,06 por tonelada.
Farelo assume o protagonismo das margens de esmagamento
A dinâmica observada em Chicago reverbera diretamente no parque industrial processador do Brasil. Tradicionalmente, as esmagadoras operam sob o cálculo do "crush margin" (margem de moagem), em que a receita conjunta obtida com a venda do farelo e do óleo precisa superar o custo de aquisição do grão na fazenda mais as despesas operacionais da fábrica.
Com a desvalorização acentuada do óleo bruto nas praças de atacado, a rentabilidade das indústrias nacionais passou a ser sustentada primordialmente pelas entregas de farelo. No Paraná, o farelo com 48% de proteína bruta avançou para a média de R$ 1.973,53 por tonelada no atacado, impulsionado tanto pela firmeza externa quanto pelo ritmo sólido dos embarques brasileiros. Dados da Abiove apontam que o país exportou mais de 17,3 milhões de toneladas de farelo de soja no acumulado até agosto, gerando receita superior a US$ 6,2 bilhões.
A perda de fôlego do óleo de soja, por sua vez, acende o sinal de alerta para refinarias e indústrias de biocombustíveis. Embora o produto acumule valorização nos últimos doze meses, o recuo recente nas cotações globais reduz a margem de contribuição do óleo no faturamento total do esmagamento. As processadoras localizadas nos grandes polos de produção, como Mato Grosso, Paraná e Goiás, são forçadas a compensar a quebra do derivado líquido cobrando patamares mais firmes no fornecimento do farelo para o setor de rações e para as tradings exportadoras.
