A configuração do fenômeno climático El Niño para o ciclo 2026/2027 divide o mapa da agropecuária brasileira em dois cenários opostos. Enquanto produtores da Região Sul precisam estruturar defesas contra chuvas torrenciais, tempestades e encharcamento do solo, o restante do país — abrangendo faixas expressivas do Centro-Oeste, Sudeste, Norte e Nordeste — enfrentará estiagens prolongadas, veranicos em fases reprodutivas e temperaturas elevadas. Diante desse quadro, equipes de pesquisa da Embrapa e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) consolidaram um pacote de 163 recomendações técnicas elaboradas pelo Grupo de Trabalho do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
As diretrizes técnicas serão apresentadas oficialmente nesta sexta-feira (9 de outubro), em transmissão ao vivo realizada pela Embrapa, com foco no lançamento de notas técnicas regionais e no uso estratégico do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc).
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A heterogeneidade climática exigirá abordagens agronômicas específicas para cada bacia produtiva:
Região Sul (Excesso hídrico e erosão): A previsão aponta precipitações volumosas e concentradas entre setembro e dezembro. O pesquisador da Embrapa Clima Temperado (RS), Ernestino Guarino, alerta que a prioridade absoluta é a proteção física do solo por meio de palhada densa, terraceamento e curvas de nível, evitando perdas de nutrientes por lixiviação e erosão laminar. Para os cereais de inverno e arroz irrigado, o manejo exige cultivares tolerantes ao acamamento e monitoramento intensivo de brusone e giberela. No milho, o parcelamento do nitrogênio é indispensável para evitar desperdício de adubo.
Centro-Oeste (Atraso de chuvas e veranicos): Mato Grosso, Goiás e o Distrito Federal encaram o período mais crítico entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, com calor extremo e risco direto sobre a janela da safrinha de milho e algodão. A recomendação é escalonar a semeadura da soja, recorrer ao plantio direto consolidado e, em caso de atrasos severos, substituir o milho segunda safra por sorgo ou milheto. No sul de Mato Grosso do Sul, o cenário inverte-se, com previsão de chuvas acima da média na primavera.
Sudeste (Estresse térmico e distribuição irregular): O centro-sul mineiro, Rio de Janeiro e São Paulo contam com expectativa de chuvas na largada da safra de grãos e cana, mas o calor acima da média elevará as taxas de evapotranspiração. Na cafeicultura, as atenções recaem sobre a florada e a granação entre o fim de 2026 e o início de 2027, exigindo conservação de água na entrelinha. A pecuária leiteira precisará de reforço em sombreamento para mitigar o estresse térmico do rebanho.
Norte (Vazante severa e logística comprometida): Além das quebras projetadas em lavouras de grãos de sequeiro em Roraima e no Pará, a forte redução na calha dos rios na bacia amazônica acende o alerta para o transporte hidroviário de insumos, escoamento de grãos e abastecimento das propriedades ribeirinhas.
Nordeste (Reserva estratégica no Semiárido): Com reservatórios em patamar inicial superior ao de episódios anteriores (cerca de 51% de capacidade), o planejamento concentra-se na captação antecipada de água, uso de barragens subterrâneas, cultivo de sorgo em substituição ao milho e formação de bancos de palma-forrageira para proteger os plantéis pecuários.
