O setor sucroenergético brasileiro enfrenta uma reviravolta climática e operacional na reta final da temporada 2026/27. De acordo com a análise trimestral da consultoria StoneX, as precipitações registradas entre abril e setembro ficaram 93% acima da média dos últimos dez anos nas áreas canavieiras do Centro-Sul. O excesso de umidade causou paralisações frequentes na colheita mecanizada, prejudicou o teor de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) e alterou o cronograma industrial das usinas.
Como resultado direto das chuvas contínuas, a consultoria calcula que um volume expressivo de 32 milhões de toneladas de cana-de-açúcar terá de ser bisado — ou seja, deixará de ser colhido no atual calendário para entrar na moagem apenas a partir de março de 2027. Em razão desses atrasos, a estimativa para a produção de açúcar do Centro-Sul foi revisada para 38,0 milhões de toneladas, o que representa uma perda de 2,2 milhões de toneladas frente à temporada anterior.
Preços do açúcar sobem em SP com chuvas e colheita lenta
Super El Niño amplia riscos à oferta global de açúcar
A retração da oferta no maior polo exportador do planeta repercutiu de forma imediata na Bolsa de Nova York (ICE). Em meados de setembro, as cotações do açúcar bruto (#11) superaram a marca de 18,70 centavos de dólar por libra-peso, impulsionadas pela entrada de fundos de investimento que antecipam um ciclo de aperto comercial. A quebra brasileira soma-se a problemas climáticos em outros produtores tradicionais, como a estiagem na Tailândia e na Índia e as ondas de calor que atingiram a beterraba sacarina na União Europeia, projetando um déficit global de 900 mil toneladas no ciclo 2026/27.
Usinas alongam safra e etanol de milho avança no mercado interno
Para mitigar as perdas de volume, as indústrias sucroenergéticas decidiram prolongar as operações de campo até dezembro. Paralelamente, o salto das cotações internacionais incentivou as unidades a direcionarem o máximo de matéria-prima para o adoçante: o mix açucareiro subiu para 51,8% no encerramento de agosto, após ter iniciado o ciclo voltado ao combustível.
Apesar do viés exportador da cana, o abastecimento interno de biocombustíveis mantém-se sustentado pela forte expansão do etanol de milho. O relatório da StoneX destaca que a produção total de etanol alcançará a marca recorde de 37,8 milhões de metros cúbicos em 2026/27. O segmento de grãos deve adicionar 15 novas plantas de destilação até o encerramento do próximo ciclo, garantindo uma base de oferta que impede disparadas descontroladas nos preços do hidratado nas bombas durante o período de entressafra das usinas de cana.
