As transformações nos hábitos globais de consumo estão desenhando uma nova rota de agregação de valor para a cafeicultura brasileira por meio do segmento ready to drink (RTD) — o café pronto para beber, disponibilizado em latas ou garrafas que dispensam qualquer preparo. No Brasil, esse nicho movimentou US$ 6,4 milhões no último ano e deve alcançar um faturamento de US$ 11,5 milhões até 2031, o que representa uma expansão de 80%, segundo relatório da consultoria internacional Mordor Intelligence. Para 2026, a projeção nacional é de alta de 10%, atingindo US$ 7,1 milhões, com taxa de crescimento anual composta (CAGR) estimada em 10,18% entre 2026 e 2031.
O aquecimento desse mercado coincide com as celebrações do Dia Internacional do Café, em 1º de outubro, trazendo perspectivas estratégicas para o país, líder isolado na colheita e na exportação global do grão. O head da Ascenza Brasil, Hugo Centurion, aponta que o formato oferece a oportunidade histórica de ir além do comércio tradicional de matéria-prima.
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“Durante muito tempo, o Brasil construiu sua liderança produzindo o café que o mundo compra. O próximo salto é produzir também as experiências que o consumidor do futuro quer beber. O futuro está em transformar cada saca em novas ocasiões de consumo, novos produtos e mais valor, e o RTD é uma das portas de entrada para essa mudança”, afirma Centurion.
No cenário internacional, os números são ainda mais superlativos: o mercado global de café RTD, avaliado em US$ 24,83 bilhões em 2025, deve fechar 2026 em US$ 26,2 bilhões e atingir US$ 34,2 bilhões em 2031, avanço de 37,6% em relação ao ano passado (CAGR de 7,52%). A expansão é impulsionada pela conveniência nas rotinas urbanas, sofisticação de receitas de extração a frio (cold brew) e adição de compostos funcionais, como proteínas, nootrópicos e adaptógenos.
O salto do consumo chinês e o desafio da industrialização interna
O continente asiático surge como o motor dessa transformação, com destaque absoluto para a China. Segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), os embarques de café brasileiro para o mercado chinês multiplicaram-se por quase quatro vezes e meia em apenas cinco anos: saltaram de 201,6 mil sacas em 2020 para 1,1 milhão de sacas de 60 kg no último balanço anual, alta de 17% sobre o volume do exercício anterior.
Dados da consultoria Ken Research apontam que o mercado geral de café na China, avaliado em US$ 51,9 bilhões em 2025, projeta alcançar US$ 95 bilhões até 2031 (CAGR de 10,6%). O consumo individual per capita quase dobrou no intervalo recente, saltando de 17 para 29 xícaras anuais, alavancado por consumidores entre 20 e 40 anos nos grandes centros urbanos do leste chinês, como Xangai e Pequim, que detêm 42,7% desse mercado. No segmento exclusivo de RTD, a estimativa da Mordor é que o mercado chinês avance para US$ 1,7 bilhão até 2031.
Para atender a esses novos padrões, os especialistas ressaltam que o setor produtivo nacional precisa aliar sanidade de lavoura e regularidade de fornecimento à evolução fabril fora da porteira. A meta é que a agroindústria brasileira processe blends sofisticados, bebidas lácteas e embalagens inteligentes prontas para beber, capturando as margens financeiras no produto final e blindando as receitas contra a volatilidade das cotações em bolsa de mercadorias.
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