A intensificação do Super El Niño consolidou-se como a variável climática mais crítica para os fundamentos do mercado internacional de açúcar. De acordo com o mais recente relatório de inteligência de mercado divulgado pela Hedgepoint Global Markets, o ápice do fenômeno entre o fim de 2026 e o início de 2027 estabelece uma assimetria severa entre os polos globais da cana-de-açúcar: enquanto potências asiáticas como Índia e Tailândia sofrem com estresse hídrico agudo, o Brasil registra excesso de umidade que paralisa a moagem no curto prazo, elevando a probabilidade de escassez imediata do produto e sustentando o vencimento março de 2027 na Bolsa de Nova York (ICE).
A coordenadora de Inteligência de Mercado da Hedgepoint, Lívea Coda, destaca que o impacto no território brasileiro carrega uma dinâmica de duas vias:
Atraso na safra de cana sustenta alta do açúcar cristal
Açúcar ganha força com corte na safra do Centro-Sul
Preço do açúcar cristal segue em alta com oferta restrita
“No curto prazo, chuvas adicionais provavelmente prolongarão as interrupções na colheita, reduzirão os níveis de ATR e diminuirão a eficiência operacional. Essa mesma umidade favorece o desenvolvimento da cana para a safra de 2027/28, melhorando potencialmente as perspectivas de produção”, analisa Coda.
As projeções da consultoria indicam que a continuidade das precipitações acima da média histórica no Centro-Sul entre outubro e dezembro traz viés de baixa para os índices de Açúcar Total Recuperável (ATR) e para o processamento de biomassa, restringindo a disponibilidade de produto físico para exportação entre o quarto trimestre de 2026 e o primeiro trimestre de 2027.
Estresse hídrico na Ásia e corte expressivo na safra da União Europeia
No continente asiático, o encerramento da temporada de monções na Índia confirmou déficits pluviométricos severos em estados produtores vitais, como Maharashtra e Karnataka. As temperaturas extremas durante o estágio reprodutivo da cana abalaram a recuperação industrial de açúcar nos engenhos, levando a Hedgepoint a alertar que Nova Délhi poderá abrir cotas suplementares de importação durante o ciclo 2026/2027 para suprir a demanda doméstica.
Cenário semelhante aflige a Tailândia, onde canaviais de sequeiro enfrentam temperaturas atípicas e falta de umidade que devem atrasar a abertura oficial das usinas para dezembro. Na Indonésia, o atraso no ciclo chuvoso de Java não compromete o corte imediato, mas reduz a recarga de lençol freático para a brotação futura das soqueiras, forçando o país a voltar a demandar produto internacional em 2026/2027.
Na Europa, a beterraba sacarina foi castigada pelo calor atípico do verão. Diante dos danos na densidade radicular, a Hedgepoint cortou sua estimativa de colheita na União Europeia de 13,8 milhões para 13,1 milhões de toneladas, configurando uma retração anual de 17% e ficando 2,2% abaixo das estimativas da própria Comissão Europeia. Já no México, onde Veracruz opera em faixa de transição climática, a safra 2026/2027 é estimada de forma conservadora em 4,6 milhões de toneladas em razão de históricos de forte frustração sob efeito do El Niño.
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