As perdas agronômicas causadas por adversidades climáticas na triticultura brasileira forçaram uma reconfiguração profunda na estratégia de abastecimento da indústria moageira para o fechamento deste ano e o primeiro semestre de 2027. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), o volume de compras externas do cereal no atual ciclo comercial pode se aproximar de 9 milhões de toneladas, patamar substancialmente superior à projeção original de 7,5 milhões.
Enquanto o consumo interno segue aquecido, a produção nacional do cereal é estimada em apenas 5,7 milhões de toneladas. Contudo, o volume efetivamente disponível para panificação é ainda mais enxuto: grande parte dos lotes colhidos sofreu depreciação no peso hectolítrico (PH) devido ao excesso de umidade, empurrando frações da safra para ração animal ou contratos já compromissados com a exportação. Esse déficit doméstico amplia a dependência direta de portos e navios, exigindo que os moinhos atuem com redobrada cautela sobre oscilações cambiais, cotações de fretes marítimos, seguros de carga e incertezas geopolíticas globais.
Escassez de trigo de qualidade sustenta preços no Brasil
Clima afeta qualidade do trigo e sustenta preços no país
O presidente-executivo da Abitrigo, Rubens Barbosa, ressalta a complexidade da transição de safra:
"O mercado nacional de trigo enfrenta um período crítico, em que as oscilações do clima forçam uma revisão profunda no planejamento do abastecimento. Essa necessidade de buscar volumes adicionais no exterior traz impactos diretos para a operação, deixando o setor exposto às flutuações cambiais, ao aumento de fretes e seguros e às incertezas do cenário global. Nenhum moinho enfrenta esse cenário isoladamente. Por isso, o Congresso será o ambiente ideal para debatermos saídas práticas, alinharmos estratégias e identificarmos oportunidades diante deste momento de transição."
33º Congresso da Abitrigo debate cenários de suprimento e custos no RJ
Para alinhar as diretrizes de mercado e a gestão de compras do setor, a entidade realiza de 21 a 23 de outubro de 2026 o 33º Congresso Internacional da Indústria do Trigo, no Windsor Barra Hotel, na cidade do Rio de Janeiro (RJ).
A grade técnica trará diagnósticos globais de oferta e cotações no dia 23 de outubro, em painel com Elcio Bento (Safras Mercado), Índio Brasil dos Santos (Solo Corretora) e Oscar Spaccasassi (diretor da Bunge Argentina), sob mediação de Valdomiro Bocchese (conselheiro da Abitrigo e CEO do Moinho do Nordeste). Já no dia 22, a análise macroeconômica e geopolítica ficará a cargo de Lourival Sant’Anna (CNN Brasil / Estadão) e do economista Sérgio Vale (MB Associados), mediada por Rubens Barbosa.
O encontro contemplará ainda debates sobre governança e carreiras com Antonio Maciel Neto e Marcelo Treff; inovação em saudabilidade e farinhas funcionais com Alessandra Rascovski, Lorenzo Rancati e Priscila Ariani; e oficinas técnicas sobre o mercado de farelo de trigo com Carlos Campabadal (IGP Institute/Kansas State University) e Ideraldo Luiz Lima. O ambiente regulatório será debatido no dia 23 com o secretário de Defesa Agropecuária do Mapa, Carlos Goulart, e a consultora Luiza Zanatta, com mediação de Carlos Augusto Neves da Rocha (CEO do Grande Moinho Cearense). O evento sediará também uma feira de negócios de máquinas e insumos voltados ao setor de farinhas.
