Os preços do trigo mantêm trajetória de alta nas principais praças comercializadoras do Brasil, sustentados por um quadro de incertezas operacionais e agronômicas em torno da safra de 2026. De acordo com análise do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a apreensão do mercado concentra-se no tripé de perdas potenciais: queda no rendimento por hectare, retração no volume total a ser colhido e, sobretudo, deterioração na qualidade comercial dos lotes que chegam aos entrepostos.
O comportamento meteorológico adverso ao longo do ciclo — caracterizado pelo excesso frequente de precipitações, elevação excessiva da umidade no solo e condições favoráveis à disseminação de doenças fúngicas — comprometeu o desenvolvimento das lavouras em diferentes polos do país, resultando em padrões qualitativos aquém das expectativas da indústria moageira.
Oferta de trigo no Mercosul cai 23% e eleva preços no Brasil
Trigo inicia colheita no oeste do RS em 814 mil hectares
A conjuntura atual agrava um quadro produtivo que já nasceu enxuto. Conforme destacam os pesquisadores do Cepea, os triticultores já haviam entrado na temporada de 2026 desestimulados financeiramente a aportar tecnologia na cultura, cenário que culminou no encolhimento prévio tanto da área semeada quanto do potencial produtivo inicial. Com a entrada gradual das colheitadeiras, os efeitos do clima úmido consolidam relatos de queda no Peso do Hectolitro (PH), perda de força de glúten (parâmetro W) e recuo expressivo no Falling Number (número de queda, índice que avalia a atividade enzimática e a aptidão da farinha para panificação).
Nos estados do Paraná e de São Paulo, colaboradores e agentes de mercado consultados pelo centro de pesquisas já constatam a predominância de trigo classificado como tipos 2 e 3 nas cargas descarregadas nas cooperativas, com oferta escassa do trigo tipo 1 — padrão nobre exigido para panificação industrial. Essa restrição interna de cereal apto para a moagem comercial tende a forçar a indústria a elevar a dependência de trigo importado para suprir o abastecimento doméstico nos próximos meses.
Siga o portal RuralNews nas redes sociais
Acompanhe as principais notícias do agro em tempo real.
