O desenvolvimento de cultivares adaptadas ao regime de sequeiro surge como uma das principais frentes agronômicas para assegurar a soberania alimentar e desconcentrar a matriz orizícola brasileira. Conduzido na Universidade Federal de Lavras (UFLA), em Minas Gerais, o programa Melhor Arroz atua há mais de uma década no melhoramento genético de linhagens de terras altas — batizadas no meio científico como "arroz verde" —, com foco prioritário em produtividade, tolerância ao estresse hídrico e baixa pegada ambiental.
Atualmente, conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), mais de 80% da colheita do cereal no país provém de várzeas inundadas, concentradas principalmente no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Tocantins. A coordenadora do programa, Flávia Barbosa Silva Botelho, alerta que a dependência excessiva desse formato traz gargalos ecológicos e riscos críticos de segurança alimentar.
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“O arroz inundado consome muita água e também é um dos grandes responsáveis pela emissão de metano, um gás relacionado ao efeito estufa. O arroz de terras altas surge como uma alternativa mais sustentável”, explica a pesquisadora.
A vulnerabilidade logística e climática agrava o cenário. Com uma produção anual em torno de 11 milhões de toneladas — volume praticamente idêntico ao consumo interno da população —, choques climáticos severos no Sul, a exemplo de enchentes históricas, desestabilizam o abastecimento e pressionam a inflação de alimentos.
“Não dá para o Brasil depender de uma única região produtora de arroz. Se houver uma grande quebra de safra, não existe mercado externo suficiente para suprir essa demanda”, alerta Flávia Botelho.
Biotecnologia CRISPR e rotação contra daninhas resistentes
Para viabilizar a cultura no Centro-Sul e no Sudeste, a pesquisa foca na arquitetura genética de materiais precoces e rústicos. Em cooperação científica com a Universidade de Arkansas, nos Estados Unidos, a equipe da UFLA emprega a técnica de edição gênica CRISPR-Cas9, modificando sequências específicas de bases nitrogenadas para otimizar genes associados à resistência ao estresse hídrico prolongado.
No modelo de negócios das fazendas, o arroz de terras altas não concorre com commodities estabelecidas, mas agrega flexibilidade agronômica. A cultura encaixa-se nas mesmas plantadeiras e colheitadeiras utilizadas para soja e milho, permitindo sua inclusão em rotação ou sucessão com feijão e trigo. Essa dinâmica quebra o ciclo de plantas daninhas resistentes ao glifosato geradas pelo plantio contínuo de transgênicos, permitindo a alternância de mecanismos de ação de herbicidas.
O programa Melhor Arroz, estruturado em 2013 em parceria com a Embrapa Arroz e Feijão e a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), já colhe resultados comerciais. Uma das linhagens de ponta, a CMG1590, cumpre a etapa final de registro junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), enquanto dezenas de genótipos de elite avançam em validação de campo. A iniciativa acumula mais de 60 publicações em periódicos indexados, 28 dissertações de mestrado e 17 teses de doutorado defendidas na área.
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