A ampliação da oferta de milho no mercado internacional reduziu a competitividade do cereal brasileiro e provocou uma desaceleração expressiva no ritmo de embarques a partir de Mato Grosso. As conclusões constam no boletim semanal do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária. Diante da abundância do grão nas principais origens concorrentes, os fluxos portuários do estado perderam tração e ficaram aquém dos volumes apurados em ciclos anteriores, elevando a apreensão do setor produtivo quanto à liquidez da colheita e ao estrangulamento da capacidade física de armazenagem.
Em setembro de 2026, os terminais logísticos movimentaram **2,85 milhões de toneladas de milho originadas em Mato Grosso**, o que representa uma **queda de 32,07%** na comparação com o mesmo mês de 2025 e um recuo de 19,01% em relação à média dos últimos cinco anos. No acumulado do trimestre entre julho e setembro, o volume exportado somou 7,61 milhões de toneladas, consolidando uma retração anual de 21,44%.
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Conforme explica o analista de milho do Imea, Gabriel Brandão, a raiz da desaceleração está no reposicionamento da oferta mundial:
"O principal fator por trás desse comportamento é o aumento da oferta no mercado internacional, que ampliou a concorrência e reduziu a competitividade do milho brasileiro. Esse cenário tem intensificado a disputa pelos principais mercados importadores e limitado a competitividade do produto mato-grossense."
Nos Estados Unidos, a colheita em ritmo acelerado e a perspectiva de estoques elevados pressionaram as cotações internacionais em Chicago, tornando a paridade norte-americana mais atraente aos compradores externos. Paralelamente, a Argentina colheu safra expressiva e, beneficiada pela redução nas alíquotas de retenções (impostos de exportação), ampliou agressivamente sua presença nos destinos globais.
Esse cerco comercial atingiu diretamente as vendas mato-grossenses para seus principais clientes: o Egito importou 1,97 milhão de toneladas (-3,85%), as remessas destinadas ao Irã recuaram para 739 mil toneladas (-29,30%) e as entregas para a Espanha cederam para 710 mil toneladas (-29,94%).
Janela logística até kaneiro e alerta de gargalo nos armazéns
Apesar do desempenho recente mais lento, o Imea ressalta que Mato Grosso ainda dispõe de uma janela operacional estratégica para tentar acelerar os despachos portuários até janeiro de 2027, momento que antecede a entrada massiva da safra de soja, que a partir de fevereiro passa a monopolizar as frotas rodoviárias, terminais ferroviários e berços portuários.
Caso os embarques repitam nos próximos meses os volumes médios do ciclo anterior, o estado conseguiria atingir cerca de 21 milhões de toneladas exportadas até janeiro. Sob essa hipótese, ainda restariam cerca de 3 milhões de toneladas para serem escoadas no intervalo entre fevereiro e junho de 2027 para viabilizar a estimativa anual de exportação da temporada, fixada em **24,10 milhões de toneladas**. O volume exigiria um esforço logístico atípico para o período de safra de soja, quando historicamente o milho escoa no máximo 2 milhões de toneladas.
Se o ritmo atual persistir, o Imea adverte para o risco concreto de o estado não alcançar a meta projetada de exportação. Sem a absorção de demanda por outros canais industriais, o excedente permanecerá retido dentro do estado, inflando os estoques de passagem e sobrecarregando a infraestrutura de armazenagem em um momento crítico, quando os silos precisarão receber a colheita de grãos da nova temporada 2026/27.
