O Centro-Oeste encerrou o primeiro semestre de 2026 com 391 CNPJs do agronegócio em recuperação judicial (RJ), o que representa 31% de todo o estoque do setor no Brasil. Em apenas 12 meses, o volume de casos na região saltou 62,2%, ritmo significativamente superior à média nacional do agronegócio, que cresceu 21,2% no mesmo período.
Mais do que o volume absoluto, chama a atenção a densidade do problema na região, já que as três maiores incidências de recuperação judicial do agronegócio brasileiro estão concentradas justamente nesses três estados.
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O indicador supera com folga a média nacional do setor, de 1,8 caso por mil produtores. O Mato Grosso lidera o ranking do país com 13,2 empresas em RJ para cada mil produtores ativos, seguido por Goiás, com taxa de 10,9 por mil, e pelo Mato Grosso do Sul, que registra 8,6 casos a cada mil produtores.
Os dados fazem parte de um levantamento especial do Monitor RGF-BIZDOC, elaborado com base em microdados da Receita Federal atualizados até 30 de junho de 2026.
Dinâmica regional: explosão em MS e alívio pontual em GO
Apesar de compartilharem a liderança das estatísticas, os três estados apresentam trajetórias distintas no comportamento das dívidas. O Mato Grosso se consolida como o principal foco regional em volume, totalizando 196 CNPJs em recuperação judicial, com alta de 54,3% no estoque em 12 meses.
Já o Mato Grosso do Sul chama atenção pela velocidade do contágio, saltando de 14 para 62 empresas em um ano — um avanço impressionante de 342,9%, impulsionado pelo crescimento de 113,8% registrado apenas no primeiro semestre de 2026.
Em contrapartida, Goiás atua como um possível sinal de estabilização: embora acumule 132 CNPJs do agro em processo de recuperação (alta de 33,3% em 12 meses), o estado registrou queda de três casos no segundo trimestre (-2,2%), marcando a primeira retração após dois anos seguidos de elevação e sinalizando uma potencial inflexão na curva.
A crise chega ao pequeno produtor
O estudo desconstrói a ideia de que a recuperação judicial afeta apenas gigantes do setor. Em Goiás, recorte que detalha o perfil dos requerentes, 77% dos CNPJs em RJ são de empresários individuais e 75% pertencem a micro e pequenas empresas. O capital social mediano desses negócios é de apenas R$ 10 mil.
A concentração setorial dos processos goianos também revela as atividades mais castigadas pela conjuntura recente:
Soja: responde por 35% das recuperações judiciais;
Pecuária de corte: representa 27% dos processos;
Serviços agrícolas: correspondem a 24% dos casos.
Juntas, essas três cadeias representam mais de 80% do estoque de RJs no estado.
Perspectivas para o segundo semestre
O desempenho financeiro do setor nos próximos meses dependerá diretamente do comportamento das taxas de juros, das cotações das commodities e dos fatores climáticos. Contudo, especialistas do Monitor alertam para um efeito retardo: existe uma defasagem estimada de 12 a 18 meses entre a melhora das condições de crédito e o seu impacto efetivo na redução dos pedidos de recuperação judicial.
O ponto central para a segunda metade de 2026 será observar se o alívio pontual registrado em Goiás confirma o início de uma pacificação do ciclo de endividamento ou se foi apenas um respiro temporário enquanto Mato Grosso do Sul continua acelerando.
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