É verdade que o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo?

Sim, nosso país é o que mais gasta com agrotóxicos no mundo, porém quando comparado a quantidade usada por área produtiva, fica em 13º lugar

Não é incomum nos depararmos com conteúdos em sites e portais atribuindo ao Brasil o título de “maior consumidor de agrotóxicos do mundo”. O principal dado disponível hoje sobre uso de agrotóxicos é o da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) feito pela consultoria de mercado Phillips McDougall. Os números são utilizados como referência tanto pelas indústrias do setor agroquímico, quanto por especialistas da área e ambientalistas radicais. Nele, é comparado o valor investido em pesticidas nos 20 maiores mercados globais em 2013.

O trabalho apresenta três rankings sob diferentes perspectivas: em números absolutos, número por área cultivada e por volume de produção agrícola.Em 2013, o Brasil foi o país que mais gastou com agrotóxicos no mundo: US$ 10 bilhões. Atrás dele, somente Estados Unidos, China, Japão e França. Porém, ao se analisar o segundo ranking, que divide os gastos totais pela área cultivada, ou seja, o quanto é investido em agrotóxico por hectare plantado, o Brasil fica em sétimo lugar, com US$ 137 por hectare. O campeões de gastos são Japão, Coreia do Sul, Alemanha, França, Itália e Reino Unido.
Brasil consome mais em volume, porém planta mais e produz muito mais que Japão, Coreia do Sul, Alemanha, França, Itália e Reino Unido.
Brasil consome mais em volume, porém planta mais e produz muito mais que Japão, Coreia do Sul, Alemanha, França, Itália e Reino Unido.

No terceiro ranking, a pesquisa traz quanto cada país gasta com pesticidas tendo o tamanho da produção agrícola como referência. Para isso, são divididos os gastos absolutos pelas toneladas de alimento produzidos. Nesse comparativo, o Brasil é o 13º da lista (US$ 9 por tonelada), que mais uma vez é liderada por Japão e Coreia do Sul. O informe anual sobre a produção de commodities da FAO, divulgado em setembro do ano passado, mostrou que o Brasil é o terceiro maior exportador agrícola do mundo.
Quando se divide o consumo de agrotóxico brasileiro pela área plantada você dilui esse volume gigantesco. São considerados área cultivada regiões como de pasto, que são terras improdutivas. Essa conta faz com que o Brasil fique lá embaixo no ranking
Larissa Mies Bombardi, professora da Faculdade de Geografia da Universidade de São Paulo

MAIOR PRODUTOR AGRÍCOLA

Segundo o levantamento, no ano de 2016, o Brasil era responsável por 5,7% da produção agrícola do planeta, abaixo apenas dos Estados Unidos, com 11%, e da União Europeia, com 41%. Segundo o professor de Agroecologia do Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás (IESA/UFG), Adriano Rodrigues, essa discussão em relação aos dados divulgados pela FAO é uma disputa narrativa. Para Adriano Rodrigues, sobre a correlação da área produtiva coberta e do volume de agrotóxicos, somos o país que mais utiliza veneno no mundo. Mas, quando você considera a quantidade de hectares de área plantada no Brasil, que é muito grande, essa correlação nos faz cair no ranking.

A pesquisadora Larissa Mies Bombardi, professora da Faculdade de Geografia da Universidade de São Paulo, questiona o cálculo feito no Ranking da FAO sobre uso de pesticida por hectare. Segundo ela, o dado que coloca o Brasil na sétima posição não reflete a realidade. “Quando se divide o consumo de agrotóxico brasileiro pela área plantada você dilui esse volume gigantesco. São considerados área cultivada regiões como de pasto, que são terras improdutivas. Essa conta faz com que o Brasil fique lá embaixo no ranking”, explica.

Larissa é autora de um dos principais trabalhos brasileiros recentes sobre o nosso consumo de pesticidas é o Atlas Geográfico do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia. O livro, publicado em 2017, traz levantamento de dados inédito sobre o consumo de agrotóxicos no Brasil (todos com fontes oficiais) e faz um paralelo com o que acontece na União Européia.

Ela compara a média de aumento mundial no consumo de agrotóxico com o brasileira, tendo como base os números de vendas de pesticida. Entre 2000 e 2010, cresceu em 100% o uso de pesticidas no planeta, no mesmo período em que o aumento no Brasil chegou a quase 200%. Segundo a apuração, cerca de 20% de todo agrotóxico comercializado no mundo é consumido no Brasil.

A professora afirma que em termos de volume, desde 2008, Brasil e Estados Unidos revezam o primeiro lugar. Essa informação é baseando-se em dados da própria indústria. "Há dificuldades em fazer rankings dos países que mais utilizam pesticidas, pois as nações utilizam diferentes metodologias, o que dificulta comparações científicas", explica. Sobre o levantamento da FAO, Larissa explica que as informações são passadas para a organização pelo próprios países. “Não existe um monitoramento internacional para fazer a classificação”, pontua.

Para o professor Universidade Federal de Goiás (IESA/UFG) Adriano Rodrigues, além de observar os números da FAO é necessários analisar os efeitos causados pelo contato com os agrotóxicos. “Mais importante do que apenas dizer se somos ou não os maiores consumidores, é mostrar as consequências desse uso tão grande. O Ministério da Saúde emite relatórios que quantificam o número de intoxicações no Brasil por exposição a agrotóxicos, mais de 80 mil notificações”, diz.


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