Segundo análises apresentadas durante o painel sobre combustíveis sustentáveis de aviação da 26ª Conferência Internacional DATAGRO sobre Açúcar e Etanol, na capital paulista, o Brasil desponta com capacidade técnica e agronômica para assumir papel central na produção de combustível sustentável de aviação (SAF). A transição energética no modal aéreo internacional deve demandar investimentos acumulados entre US$ 1 trilhão e US$ 1,5 trilhão até 2050 para viabilizar a oferta do insumo em escala comercial.
O debate — mediado pela sócia líder do Agronegócio da KPMG, Giovana Araujo — reuniu o coordenador dos Assuntos de Combustíveis Sustentáveis de Aviação do Ministério de Minas e Energia (MME), Darlan Silva dos Santos, e o líder regional para o Setor Aeroespacial da KPMG, Eliseo Llamazares. Entre os pontos centrais, os debatedores pontuaram que o ganho de escala ainda depende da mitigação de custos fabris e do desenvolvimento de um mercado consumidor disposto a remunerar o adicional de sustentabilidade.
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Conforme explicou Darlan Silva dos Santos, o volume produzido globalmente permanece muito aquém da necessidade do setor aéreo, revelando tanto um gargalo estrutural quanto um campo aberto para o avanço brasileiro.
"A produção global de combustível sustentável de aviação ainda não atende a 1% da demanda necessária, o que escancara um desafio, mas também uma oportunidade monumental. O mercado enfrenta gargalos como a pulverização da oferta e os custos elevados de implantação, em que o CapEx para uma biorrefinaria de SAF pode ser até 20 vezes maior do que o de uma usina de etanol", frisou o coordenador do MME.
Cronograma de metas e estímulo regulatório
Para estruturar a demanda no mercado interno e atrair investimentos industriais privados, o governo brasileiro avança na formatação de um marco regulatório com escalonamento obrigatório de metas ambientais. A partir de 2027, entra em vigência a exigência inicial de redução de 1% nas emissões de gases causadores de efeito estufa no setor aéreo, percentual que aumentará progressivamente até atingir o patamar de 10% em 2037.
"Mais do que regulação, estamos pavimentando o terreno para que o Brasil não seja apenas um participante, mas o maior protagonista global na indústria do SAF", assegurou Darlan.
Na visão de Eliseo Llamazares, da KPMG, a magnitude dos valores projetados para a infraestrutura de biocombustíveis aéreos coloca o continente em uma rota singular de desenvolvimento socioeconômico.
"Temos que entender que se trata de desenvolvimento para o Brasil, para a América do Sul e para a América Central. Daqui até 2050, estima-se que os investimentos necessários para atender à demanda de SAF fiquem entre US$ 1 trilhão e US$ 1,5 trilhão. É uma quantia para a qual hoje existem muito poucas indústrias que realmente apresentam esse crescimento. O Brasil tem potencial para ser um dos protagonistas, se não o maior protagonista, da indústria do SAF no mundo", ressaltou Llamazares.
Desacoplamento ambiental e modelo Book Claim
Outro vetor considerado chave para dar liquidez ao mercado nascente é a aplicação de modelos contábeis flexíveis, com ênfase no sistema Book Claim. Esse mecanismo permite a transação dos certificados e atributos ecológicos do biocombustível de forma independente da entrega molecular física nas aeronaves, viabilizando o faturamento de créditos de carbono e simplificando entraves logísticos transfronteiriços.
A agenda do encontro reforçou que a consolidação da liderança brasileira exigirá segurança jurídica, ampla oferta de matérias-primas agropecuárias e captação de recursos de longo prazo, permitindo que a infraestrutura sucroenergética nacional se posicione no centro do abastecimento da aviação mundial descarbonizada.
