A hegemonia brasileira no comércio internacional de fibras naturais entrou na mira estratégica do agronegócio norte-americano. Durante o ICA Trade Event 2026, conferência global sediada entre 14 e 15 de outubro em Istambul, na Turquia, o renomado trader da Louis Dreyfus Company (LDC), Joe Nicosia, afirmou que os Estados Unidos estão estruturando medidas agressivas para recuperar competitividade e frear o avanço comercial do Brasil no mercado do algodão.
A investida norte-americana busca estimular a demanda internacional por sua pluma por meio de concessões comerciais e estímulos diretos à manufatura têxtil. Segundo o executivo da LDC, três movimentos centrais têm potencial para remodelar o tabuleiro internacional:
Mercado do algodão tem baixa liquidez e preços em queda
Com 82 mil t de pluma, algodão mineiro avança no mercado
Reaproximação com a China: a retomada de negociações tarifárias prioritárias com o maior polo têxtil do planeta;
Revisão tarifária: possíveis isenções previstas na Seção 301 da legislação comercial norte-americana;
Incentivo fiscal doméstico: a tramitação do Buying American Cotton Act (BACA), projeto de lei que concede incentivos tributários diretos para produtos acabados que utilizem fibra colhida em território norte-americano.
Conforme a análise apresentada por Nicosia perante industriais e exportadores, a efetivação simultânea dessas medidas poderia provocar um choque positivo nas cotações em bolsa, impulsionando a pluma internacional para patamares acima de 100 centavos de dólar por libra-peso.
Domínio brasileiro e déficit na oferta mundial
O movimento de reação norte-americano reflete a perda contínua de espaço nos portos. Há três safras consecutivas, o Brasil ostenta a liderança isolada como o maior exportador mundial de algodão, respondendo atualmente por expressivos 34% de todo o comércio global da pluma, segundo dados oficiais da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea). Para o ciclo 2026/27, a entidade projeta embarques nacionais próximos a 3,4 milhões de toneladas.
O cenário desenha-se ainda sob um quadro estrutural de descompasso entre oferta e procura global. Projeções divulgadas pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) durante o evento na Turquia estimam que a safra mundial de algodão em 2026/27 alcançará 118 milhões de fardos, patamar insuficiente para atender a demanda global, projetada em 123,1 milhões de fardos. Esse déficit físico de mais de 5 milhões de fardos intensifica a disputa comercial por contratos entre os dois gigantes cotonicultores.
