A ampliação das vendas externas de filés congelados de tilápia marca a abertura de uma nova fronteira comercial para a cadeia aquícola nacional. A avaliação foi apresentada pelo presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), Francisco Medeiros, durante sua participação no painel "O mundo do pescado: desafios e oportunidades de polos produtivos globais", realizado no âmbito da Seafood Show Latin America 2026, feira de negócios sediada em São Paulo entre os dias 20 e 22 de outubro.
Quarto maior criador mundial da espécie, o Brasil consolidou em 2025 o marco histórico de ultrapassar 1 milhão de toneladas de peixes de cultivo. No entanto, a presença do produto nacional nas gôndolas internacionais ainda permanece modesta quando comparada ao potencial hídrico e técnico das propriedades brasileiras. Esse descompasso ocorreu porque a rápida expansão do consumo interno nos últimos anos concentrou o foco comercial das agroindústrias no abastecimento doméstico, relegando a internacionalização a um segundo plano até recentemente.
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Tradicionalmente, os embarques para Estados Unidos e Canadá sustentam o comércio externo nacional, concentrados quase integralmente no formato de filé fresco, onde o país conquistou reputação internacional pela agilidade do transporte aéreo, qualidade de polpa e custos competitivos. A nova estratégia setorial, contudo, mira a diversificação geográfica em larga escala por meio da proteína congelada.
"Estamos entrando em uma nova fase, voltada ao mercado internacional de filés congelados. Temos capacidade produtiva, tecnologia e escala, mas precisamos avançar na adequação dos protocolos de produção e processamento às exigências dos diferentes compradores", pontua Medeiros.
Vantagens competitivas e gargalos regulatórios
A piscicultura brasileira apoia-se em vantagens estruturais únicas: ampla disponibilidade de grãos (milho e farelo de soja) para conversão em ração de alto rendimento, clima favorável durante o ano todo e a migração de grupos industriais consolidados nos segmentos de aves e suínos. Essa integração trouxe padrões avançados de biosseguridade, automação robótica em frigoríficos, seleção genética de alevinos e eficiência em fábricas de ração.
Por outro lado, o dirigente da Peixe BR alertou que a consolidação da tilápia brasileira no mercado global ainda tropeça em desafios internos e externos:
Custos logísticos e fretes internacionais: impacto direto na formação do preço competitivo nos portos de destino;
Barreiras não tarifárias e sanitárias: necessidade constante de habilitação e adequação às normas técnicas de blocos importadores;
Ambiente regulatório e burocracia doméstica: lentidão e complexidade nos processos de licenciamento ambiental das águas públicas e encargos tributários incidentes sobre a produção.
"A piscicultura é uma atividade relativamente jovem no Brasil e ainda passa por um processo de amadurecimento. Temos frigoríficos altamente automatizados e empresas que continuam investindo em tecnologia e eficiência. O desafio é criar condições para que toda essa capacidade se transforme em maior competitividade. Acreditamos no potencial da piscicultura brasileira e na capacidade de nossos produtores e investidores. Os desafios regulatórios, sanitários e tecnológicos continuarão existindo, mas temos condições de avançar e ampliar nossa participação no mercado global, oferecendo uma proteína de qualidade e produzida com competitividade", conclui o presidente da entidade.
