A citricultura paulista consolidou-se como um dos pilares mais avançados e tecnificados do agronegócio mundial. Trazidos pelas caravelas portuguesas no século XVI, os citros encontraram no solo e no clima de São Paulo as condições para erguer uma cadeia agroindustrial de liderança global.
O salto estrutural do setor iniciou-se na virada do século XX, com o aporte científico que substituiu o plantio rudimentar pelo uso de mudas enxertadas e melhoramento genético.
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"A citricultura paulista foi muito beneficiada, principalmente no início dos anos 1900, pelo estímulo a novos plantios, pela utilização de mudas enxertadas e pelo fortalecimento da assistência ao setor, especialmente nas áreas de pesquisa e tecnologia. Um exemplo desse avanço foi a criação da Estação Experimental de Limeira, em 1928, que posteriormente se tornaria o Centro de Citricultura do IAC-APTA, em 1993", explica Dirceu Mattos Jr., diretor do Centro de Citricultura Sylvio Moreira, vinculado ao Instituto Agronômico (IAC-APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo.
Atualmente, o estado registra 54 cultivares comerciais de laranja catalogadas pelo Centro. A variedade Pera lidera os pomares, respondendo por cerca de 30% das laranjas doces destinadas tanto à moagem industrial quanto ao consumo de mesa, dividindo espaço com as variedades Natal, Valência e Folha Murcha.
A "laranja de umbigo" que ganhou o mundo
Entre as trajetórias mais emblemáticas dos pomares está a laranja Baía, nascida de uma mutação natural identificada na Bahia ainda no século XIX. Levada para os Estados Unidos e a Austrália, a cultivar foi rebatizada como Washington Navel — termo derivado de "navel" (umbigo), alusão ao fruto secundário característico em sua base. Na Califórnia, o material de raiz brasileira tornou-se a cultivar dominante na produção de frutas frescas.
O universo dos citros reúne ainda particularidades taxonômicas: nem tudo o que o consumidor chama de laranja pertence estritamente à espécie. É o caso dos kumquats (laranjas-anãs), consumidos integralmente com a casca e muito utilizados na indústria de doces, geleias e compotas.
O lastro tecnológico de todo esse parque produtivo concentra-se no Centro de Citricultura Sylvio Moreira, em Cordeirópolis (SP). Nos últimos três anos, a instituição lançou 24 novas variedades comerciais. O centro abriga também o Banco de Germoplasma de Citros do IAC, uma das mais expressivas coleções de matrizes genéticas do planeta voltada ao cruzamento de cultivares, fitossanidade, nutrição e tolerância a pragas.
Novas regras no combate ao greening
O principal desafio à sustentabilidade do parque citrícola segue sendo o greening (Huanglongbing - HLB), moléstia vascular bacteriana transmitida pelo inseto vetor psilídeo (Diaphorina citri).
A fiscalização é exercida pela Defesa Agropecuária estadual, exigindo dos citricutores inspeções trimestrais nos talhões e o preenchimento de relatórios semestrais de cancro cítrico e greening pelo sistema informatizado Gedave. Em 2026, novas diretrizes regulatórias escalonaram as medidas conforme a pressão fitossanitária:
Municípios de baixa incidência: erradicação obrigatória de todas as plantas com sintomas visíveis de greening, independentemente da idade do pomar;
Municípios de alta incidência: obrigatoriedade de eliminação concentrada em pomares de até três anos;
Combate ao psilídeo: exigência mandatória contínua em todo o território estadual, aliada à fiscalização da pureza genética e sanidade dos viveiros de mudas telados.
Liderança econômica e exportações de US$ 1,42 bilhão
São Paulo concentra 80% da safra nacional de laranja, conforme dados do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus). A simbiose entre academia e fazenda é tamanha que 90% dos pomares comerciais paulistas são formados por cultivares geradas ou preservadas nas matrizes do IAC-APTA.
Os reflexos financeiros dessa cadeia comprovam sua musculatura econômica:
Laranja para processamento fabril: movimentou R$ 13,1 bilhões em São Paulo em 2025, situando-se no topo do Valor da Produção Agropecuária (VPA) paulista, segundo o Instituto de Economia Agrícola (IEA);
Fruta para consumo in natura: gerou R$ 3,8 bilhões;
Exportações de sucos: entre janeiro e setembro de 2026, os embarques paulistas de suco faturaram US$ 1,42 bilhão, dos quais 96% corresponderam exclusivamente ao suco de laranja.
"Nesses 30 anos, o setor superou pressões fitossanitárias, climáticas e econômicas, alcançando um aumento de duas vezes e meia na produtividade. Poucas culturas apresentaram um avanço dessa magnitude, o que contribuiu significativamente para o crescimento da atividade", conclui Dirceu Mattos Jr.
