Apesar da crescente concentração da atividade em tambos mais estruturados, a maioria das propriedades leiteiras do Rio Grande do Sul ainda opera distante do seu real teto agronômico e zootécnico. O alerta foi apresentado pelo consultor Wagner Beskow, durante a programação do Milk Summit Mercosul 2026, realizado em Ijuí (RS).
Segundo o especialista, a Metade Norte gaúcha apresenta potencial comprovado para alcançar 33 mil litros por hectare ao ano em sistemas convencionais e até 50 mil litros por hectare ao ano sob irrigação, volumes que superam em mais que o dobro a média atual colhida na região.
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A margem para crescimento técnico surge após uma década severa de ajuste estrutural, período em que 55,2 mil produtores abandonaram a atividade leiteira no estado, de acordo com levantamentos da Emater/RS-Ascar.
"Hoje, temos menos produtores, mas mais volume. É um cenário que mudou e ainda deve resultar em um futuro de grandes e mega produtores. Precisamos entender o que significa essa mudança", frisou Beskow.
Na avaliação do consultor, a viabilidade econômica do setor no médio prazo exigirá escala mínima superior a 500 litros por dia por propriedade, patamar que viabiliza as rotas de captação e o frete dos laticínios. Ele recomendou que os pecuaristas priorizem infraestruturas enxutas e rotinas fluidas de manejo.
Penosidade e Desafio Sucessório no Campo
A continuidade na produção leiteira, no entanto, ultrapassa a barreira do volume físico. O assistente técnico estadual da Emater/RS, Jaime Ries, apontou que o êxodo na atividade é impulsionado por questões sociais e geracionais dentro das propriedades familiares. Dados da instituição revelam que:
66,4% dos produtores apontam a penosidade do trabalho diário como motivo central de desestímulo;
61,3% citam a escassez de mão de obra familiar;
37,8% relatam o desinteresse dos filhos pela sucessão no tambo.
"Os resultados indicam que a saída da produção comercial de leite deve ser compreendida como um processo multifatorial de transformação das estratégias familiares, no qual se combinam condições econômicas da cadeia, organização do trabalho, disponibilidade de mão de obra familiar, dinâmica geracional, características produtivas e possibilidades alternativas de geração de renda", detalhou Ries.
Eficiência em Sólidos e Competitividade Internacional
Outro gargalo destacado no fórum é a composição do leite entregue à indústria. Enquanto o Rio Grande do Sul registra teores médios combinados de gordura e proteína entre 6% e 7,5%, concorrentes como a Nova Zelândia alcançam 9,17% de sólidos totais, garantindo maiores bonificações e menor custo por quilo de sólido processado — US$ 3,33 na Nova Zelândia frente a US$ 5,82 no estado gaúcho.
Para o pesquisador da Embrapa Gado de Leite Glauco Carvalho, a alta capacidade de produção de forragens e a dedicação das famílias rurais permanecem como as principais fortalezas gaúchas na concorrência com o leite importado da Argentina e do Uruguai. Por outro lado, Carvalho adverte que o predomínio de minifúndios pode impor limites físicos à escala necessária.
Com a presença de mais de 750 participantes, 27 palestrantes e 11 startups na Arena Láctea de Inovação, o coordenador do evento e secretário-executivo do Sindilat/RS, Darlan Palharini, confirmou a realização da terceira edição do Milk Summit Mercosul em 2027.
