Importações de leite do Mercosul pressionam indústrias no RS

Entrada de lácteos de Argentina e Uruguai retém 8% do mercado local e acirra disputa no varejo, enquanto parque industrial opera com quase 50% de ociosidade
Importações de leite do Mercosul pressionam indústrias no RS
Pequenos e médios laticínios do Rio Grande do Sul enfrentam concorrência direta de derivados importados do Mercosul nas gôndolas de supermercados. Foto: Rejane Costa / AgroEffective
Foto do autor Fernando Teixeira
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A produção de leite no Rio Grande do Sul registrou uma expansão de aproximadamente 2,38% em 2025 frente ao consolidado do ano anterior. O fôlego produtivo na ponta da fazenda, no entanto, não foi suficiente para atenuar as distorções comerciais enfrentadas pelas indústrias estaduais. Dados da Associação das Pequenas e Médias Indústrias de Laticínios do Rio Grande do Sul (Apil) apontam que os derivados lácteos importados respondem por cerca de 8% do volume comercializado no mercado doméstico, impondo severa compressão de margens aos elos locais da cadeia de valor.

O fluxo de compras concentrado em produtores da Argentina e do Uruguai — que operam com custos estruturais e tributários mais enxutos que os praticados no Brasil — atinge diretamente os pequenos e médios processadores regionais. Se no passado a intermediação era restrita a grandes conglomerados industriais, o avanço de traders e operadores logísticos especializados democratizou o acesso a cargas externas para redes de varejo, distribuidores atacadistas e grandes redes de pizzarias, substituindo queijos e compostos lácteos fabricados no estado por derivados mais baratos.

Esse desequilíbrio concorrencial acirra os atritos comerciais com os pecuaristas. Pressionados pela perda de espaço nas prateleiras dos supermercados, os laticínios de menor porte são compelidos a reduzir o valor de captação pago pelo litro posto no tanque para manterem a competitividade no varejo. Ao contrário das grandes multinacionais, que operam sistemas híbridos comprando leite fluido no estado e importando leite em pó e massa pré-elaborada de muçarela para balancear despesas, as estruturas familiares e regionais dependem exclusivamente do leite ordenhado nos municípios gaúchos.

Ociosidade fabril de 50% e busca por protecionismo tributário

Outro entrave estrutural reside na subutilização da capacidade instalada. O parque industrial lácteo gaúcho possui estrutura dimensionada para processar entre 19 milhões e 20 milhões de litros por dia, ao passo que a captação real oscila ao redor de 10,5 milhões de litros diários. Para diluir custos fixos de transporte e logística sem incorrer em novas rotas distantes, as indústrias buscam elevar o rendimento e a eficiência dos produtores já fidelizados em suas bacias de captação.

Diante do quadro de estrangulamento financeiro, a Apil, em articulação com entidades representativas nacionais como a Associação Brasileira das Indústrias de Queijo (ABIQ) e a Associação Brasileira das Pequenas e Médias Cooperativas e Empresas de Laticínios (G100), intensificou a cobrança junto ao governo federal por mecanismos de defesa comercial.

A pauta do setor reivindica a imposição de sobretaxas e instrumentos tributários específicos sobre a entrada de queijo muçarela e leite em pó do Mercosul, além do alargamento de linhas de crédito emergenciais e de campanhas institucionais para estimular o consumo de derivados nacionais. As lideranças advertem ainda para as assimetrias regulatórias: enquanto a bacia gaúcha cumpre parâmetros estritos de inspeção veterinária e qualidade físico-química exigidos pela legislação brasileira, faltam garantias de que os produtos estrangeiros ingressem no país submetidos aos mesmos rigores sanitários.

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