Mineradora financiada pelo Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro, a 3D Minerals possui 88 áreas de exploração de minerais críticos sobrepostas ou na zona de impacto de ao menos 127 áreas protegidas. Ao todo são afetadas dez terras indígenas, cinco territórios quilombolas, 23 unidades de conservação e 89 assentamentos de reforma agrária.
Amplamente demandados pela indústria bélica e de tecnologia, os chamados minerais críticos — como cobre, lítio, terras raras e níquel — são usados na fabricação de diferentes produtos, como chips, torres eólicas e carros elétricosA lista de áreas impactadas inclui terras indígenas como Kayapó (PA), Mãe Maria (PA), Yanomami (RR), Kayabi (MT), Xikrin do Rio Cateté (PA) e Piripkura (MT), além dos quilombos Lagoa Grande (MG), Pitombeira (PB), Kalunga (GO) e Família Magalhães (GO).
Os dados foram extraídos do Observatório da Transição Energética — plataforma de dados da Repórter Brasil, em parceria com o Instituto de Estudos Socioeconômicos e o Grupo de Pesquisa e Extensão Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade, que monitora os impactos de empreendimentos ligados à transição energética sobre territórios protegidos.
Das 88 áreas da 3D Minerals com impacto em territórios protegidos, ao menos 73 já tiveram a pesquisa mineral autorizada pela Agência Nacional de Mineração. As áreas foram arrematadas pela 3D durante leilão da ANM em agosto de 2024, apenas 45 dias após a fundação da empresa. Segundo a Folha de S.Paulo, a mineradora foi a grande vencedora do certame, obtendo 276 áreas de minérios, das quais 116 de minerais críticos.
A 3D Minerals pertence aos irmãos Daniel Wanderley e Eduardo Wanderley. Naturais de Belo Horizonte (MG), assim como Daniel Vorcaro, conhecidos por negócios no setor de construção civil e novatos na mineração.
Um dos casos que chama atenção no portfólio da 3D Minerals é um requerimento de exploração de terras raras sobreposto ao quilombo Família Magalhães, no norte de Goiás.Reconhecida como quilombola há 22 anos, a comunidade ainda aguarda pelo título definitivo da terra.
Mesmo assim, a ANM autorizou a pesquisa minerária sobre o território sem consulta prévia aos moradores.A Convenção 169 da OIT, ratificada pelo Brasil em 2004, garante a comunidades tradicionais o direito de serem consultadas sobre empreendimentos que as afetem. Porém, os documentos do processo mineral mostram que a agência ignorou a existência do quilombo durante a análise de interferência de área.
A Aclara trabalha no projeto há pelo menos dois anos. A empresa já concluiu a pesquisa mineral, publicou o estudo de viabilidade, requereu a lavra em maio e deu início ao licenciamento ambiental junto ao governo de Goiás. Toda movimentação teve anuência da ANM, mas sem o consentimento da comunidade.
A consulta aos moradores, conduzida pelo Incra, só começou em julho. A mineradora disse que, no licenciamento ambiental, excluirá do projeto as áreas do quilombo.O requerimento da 3D Minerals sobreposto ao Quilombo Família Magalhães está na zona de impacto de outras duas áreas protegidas: o quilombo Kalunga e a Chapada dos Veadeiros.
Ocupando um dos maiores territórios quilombolas do país, a comunidade Kalunga também não foi consultada antes de a ANM autorizar a pesquisa da 3D Minerals.A Associação Quilombola Kalunga, que representa a comunidade, enfrenta uma batalha judicial de mais de uma década contra a ANM para frear a cobiça minerária no território.
Em 2018, a Justiça Federal determinou que o então DNPM (antecessor da ANM) suspendesse os processos minerários incidentes sobre o Sítio Histórico Kalunga e consultasse previamente a comunidade antes de conceder novas autorizações que atingissem o território. A decisão não foi cumprida.
Em agosto de 2025, a Repórter Brasil mostrou que, em meio ao interesse envolvendo minerais críticos, a ANM continuava autorizando pesquisas minerais dentro do território Kalunga.
O requerimento de terras raras da 3D Minerals faz também divisa com o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, unidade de conservação federal de proteção integral.A área mais afetada pelos requerimentos de minerais críticos da 3D Minerals é o Parque Estadual Cristalino, no Mato Grosso. Dentro do parque, a mineração é expressamente proibida.
