Um estudo científico conduzido pela Rede Paranaense de Agropesquisa e Formação Aplicada (Rede Agropesquisa) demonstra que a gestão técnica e a preservação da chamada “vida invisível do solo” — composta por minhocas, insetos, fungos e bactérias — exercem impacto econômico direto na rentabilidade das propriedades rurais do Paraná. A atuação conjunta desses organismos possibilita menor dependência de adubações químicas de base, cortes na aplicação de herbicidas e fungicidas, além de conferring maior resiliência biológica em cenários de déficit hídrico. O levantamento está inserido no Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação Prosolo (Napi-Prosolo), contando com a parceria institucional do Sistema FAEP e da Fundação Araucária.
“A biota do solo é fundamental para o sistema solo-planta. Bactérias, fungos, minhocas, besouros, formigas e uma infinidade de outros organismos formam, junto da água, ar e componentes físicos e químicos, o chamado ‘solo vivo’”, detalha o coordenador da pesquisa, Arnaldo Colozzi Filho, doutor em Agronomia do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), em Londrina. “O resultado prático aparece direto no bolso do produtor. A biota vai possibilitar menor adubação com químicos, menor uso de herbicidas e fungicidas. Ou seja, quanto mais ativa e diversificada essa vida no solo, menos insumo externo o produtor precisa usar e maior a rentabilidade da lavoura”, complementa o especialista.
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Na dinâmica do campo, os microrganismos decompõem a palhada remanescente, aceleram a ciclagem de nutrientes e os convertem em formas prontamente assimiláveis pelas raízes, a exemplo da palha que é reincorporada naturalmente três meses após a colheita do milho. Em paralelo, populações específicas exercem controle biológico nativo contra moléstias radiculares graves, a exemplo de linhagens fúngicas benéficas que inibem o avanço de nematoides.
A pesquisa monitora desde 2018 talhões agrícolas com e sem terraço em seis regiões paranaenses, avaliando o comportamento do perfil subsuperficial do solo sob diferentes manejos. O estudo conta ainda com a colaboração técnica de pesquisadoras e docentes da UEPG, Unicentro, Unicesumar, UEM e UTFPR-Dois Vizinhos.
“O Sistema FAEP tem priorizado pesquisas a campo, porque sabemos que o futuro da agropecuária paranaense passa pela ciência. É preciso garantir que o solo continue produtivo para as próximas gerações. Por isso, seguimos apoiando essas parcerias com universidades e instituições de pesquisa. É assim que o Paraná se mantém na vanguarda de uma agropecuária moderna, sustentável e competitiva”, destaca o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette.
Terraceamento combate a erosão biológica
A abertura e conservação de terraços atua como mecanismo de correção frente aos desequilíbrios induzidos pelo uso intensivo do solo. O terraceamento quebra a energia da enxurrada e força a infiltração da água da chuva no perfil agricultável, impedindo o carreamento de terra fértil para mananciais. O pesquisador pontua que lavouras destituídas da estrutura perdem em três frentes associadas: nutrientes (erosão química), camada arável (erosão física) e microbiota benéfica (erosão biológica).
A retenção hídrica obtida pelo terraço estabiliza a temperatura e conserva a umidade, viabilizando o habitat exigido pelos microrganismos. Nas áreas avaliadas pelo estudo, essa constância resultou em saltos notáveis na população de Fungos Micorrízicos Arbusculares: em Toledo (Oeste), o volume de esporos foi 117% superior nos talhões terraceados; em Dois Vizinhos (Sudoeste), a alta foi de 39%; e em Cambé (Norte), o avanço alcançou 14%.
“Eles têm uma particularidade importante: são simbiontes, ou seja, colonizam as raízes das plantas e crescem no solo como se fossem uma extensão da raiz e, assim, permitem que absorvam mais nutrientes, sem prejudicá-la. Uma simbiose perfeita”, ressalta Colozzi Filho. Nas faixas de solo arenoso, como no Noroeste do Paraná, embora a atividade biológica seja naturalmente mais contida devido às características geológicas, a infiltração hídrica igualmente sustenta os índices microbiológicos.
Plantio direto e sinergia de manejo
Para consolidar o equilíbrio térmico e a proteção do solo, a integração entre terraceamento e Sistema Plantio Direto (SPD) mostra-se indispensável. Em solo sem proteção, a temperatura de superfície atinge limites críticos capazes de inviabilizar a respiração e a sobrevivência da microbiota.
A presença contínua da palhada, aliada ao não revolvimento da terra, reduz a amplitude térmica, resguarda a umidade e preserva os canais formados pelas raízes mortas, criando o ecossistema ideal para a multiplicação de insetos úteis, minhocas e bactérias. A rotação planejada de culturas e a semeadura em nível fecham o pacote agronômico que converte a proteção biológica em produtividade perene e longevidade para o solo paranaense.
