A valorização sustentada da arroba do boi gordo associada à estabilidade nos custos nutricionais levou a relação de troca entre o valor do animal e o custo alimentar a um recorde histórico no Sudeste durante o mês de setembro. Segundo o Índice de Custo Alimentar Ponta (ICAP), elaborado pela Ponta Agro, uma arroba de boi gordo passou a pagar 30,77 dias de cocho, marcando a primeira vez que o indicador ultrapassa a barreira de 30 dias na série histórica regional.
O resultado decorre da conjunção da maior cotação da arroba na praça do Sudeste, fixada em R$ 356,00 (+4,40%), com o ICAP praticamente estável em R$ 11,57 por cabeça/dia (+0,26%). A base de dados reflete o monitoramento real da Tecnologia de Gestão de Confinamento (TGC), presente em mais de 57% dos animais confinados no Brasil, conforme o Beef Report da Abiec.
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Em contraste evidente, o Centro-Oeste seguiu rota oposta. Na região, o ICAP saltou 6,64%, alcançando R$ 12,68 por cabeça/dia — a maior alta mensal apurada desde março. O custo da dieta de terminação subiu 6,46%, para R$ 1.088,66 por tonelada de matéria seca (MS), encerrando uma sequência de cinco meses consecutivos de queda. O consumo médio de matéria seca também avançou pelo sexto mês seguido, atingindo 10,02 kg/dia.
Essa divergência fez a diferença de custo alimentar diário entre os dois polos saltar de R$ 0,35 em agosto para R$ 1,11 por cabeça/dia em setembro, assegurando ao Sudeste a dieta mais competitiva pelo sétimo mês seguido. Na ponta final da rentabilidade da arroba produzida, o fosso ampliou-se: o Sudeste avançou 3,98%, gerando R$ 1.210,21 de margem por cabeça, enquanto o Centro-Oeste amargou retração de 7,77%, recuando para R$ 906,75. A vantagem pró-Sudeste atingiu R$ 303,46 por animal, a maior disparidade registrada em 2026.
Comportamento trimestral das dietas: volumosos pressionam o Centro-Oeste
A análise comparativa com a média móvel trimestral (junho a agosto) detalha as causas do encarecimento da ração nas duas regiões:
Centro-Oeste: Os ingredientes volumosos lideraram a pressão altista, fechando setembro 27,67% acima da referência. A categoria "Outros" subiu 15,66%, enquanto os energéticos tiveram leve avanço de 0,66% com a retomada nos preços do milho após o piso da safrinha em julho. O alívio veio dos proteicos (-18,51%), beneficiados pelas mínimas anuais do coproduto de milho DDG (R$ 937,95/t), caroço de algodão (R$ 942,40/t) e farelo de algodão (R$ 796,90/t).
Sudeste: Todos os grupos de insumos recuaram frente ao trimestre anterior. A categoria "Outros" caiu 12,67%, volumosos cederam 5,84%, proteicos recuaram 4,99% e energéticos registraram baixa de 1,72%. O custo da silagem de milho desabou 24,0% (menor valor de 2026), e o bagaço de cana — volumoso mais frequente na região — operou 8,8% abaixo da média trimestral.
Porteira adentro e porteira afora: o custo da arroba produzida
A dinâmica de rentabilidade refletiu tanto a negociação com os frigoríficos quanto a eficiência zootécnica nas fazendas:
Sudeste: Os confinamentos mantiveram os animais por uma média de 112 dias de cocho, com ganho de 7,91 arrobas por cabeça. O custo da arroba produzida ficou em R$ 203,00 (+4,61%), compensado pela arroba física vendida a R$ 356,00 (+4,40%), garantindo o lucro líquido de R$ 1.210,21 por cabeça.
Centro-Oeste: O ciclo de cocho estendeu-se de 107 para 118 dias, com ganho médio de 8,32 arrobas por cabeça. Esse alongamento operacional elevou o custo da arroba engordada para R$ 224,52 (+11,92%) — o maior patamar desde abril de 2025. Como o boi gordo físico subiu apenas 2,14% na região (cotado a R$ 333,50), a valorização de venda não cobriu o encarecimento nutricional, encolhendo o lucro para R$ 906,75 por cabeça.
No segmento exclusivo de animais destinados à exportação para a China (Boi China), a assimetria persistiu: o confinador do Sudeste obteve uma margem média de R$ 1.281,40 por cabeça, contra R$ 960,83 registrados nas estruturas do Centro-Oeste.
