A citricultura brasileira iniciou a safra 2026/27 sob um cenário de forte compressão de margens financeiras e reconfiguração geográfica. O mais recente relatório do consultoria Radar Agro, elaborado pelo Itaú BBA, aponta que o setor vive um desencaixe entre oferta, consumo e custos de produção que exige máxima eficiência operacional do produtor rural.
A estimativa do Fundecitrus para o cinturão citrícola de São Paulo e Triângulo/Sudoeste Mineiro projeta uma colheita de 255 milhões de caixas, volume 13% inferior ao ciclo 2025/26 (293 milhões) e distante do patamar confortável de 300 milhões de caixas. A quebra decorre da bienalidade negativa aliada ao clima adverso, que prejudicou a produtividade média (queda de 14%, para 697 cxs/ha).
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No entanto, a menor produção não sustentou os preços no mercado. A safra anterior mais volumosa permitiu à indústria recompor seus estoques de passagem de suco de laranja (FCOJ equivalente) para 616 mil toneladas em dezembro de 2025. Essa maior disponibilidade, combinada a um recuo de 5,8% nas exportações para a União Europeia — principal comprador global —, retirou a pressão compradora das usinas.
Com isso, o preço da laranja posta na indústria no mercado spot desabou 30% em 12 meses, cotado a R$ 30,57/cx em agosto, enquanto o suco concentrado na Bolsa de Nova York despencou 40%. Nos Estados Unidos, apesar de o Brasil ter expandido os embarques em 16% para suprir a crise da Flórida, o valor no varejo americano manteve-se no topo histórico (US$ 4,87/lata), inibindo o consumo final em 8,3%.
O peso do greening e a migração da citricultura
Enquanto a receita no campo despenca, a estrutura de custos permanece altamente pressionada. O avanço do greening (HLB) consolidou-se como o maior risco estrutural da atividade. Na safra 2025/26, a praga impediu a colheita de 49,6 milhões de caixas, gerando um prejuízo direto de R$ 1,8 bilhão em receita bruta para os citricultores.
Com a incidência média da doença atingindo o recorde de 47,6% no cinturão tradicional (chegando a 74% no Sul de SP), o manejo exigiu aumento nas aplicações de defensivos, encarecendo o custo operacional por caixa em pomares de menor produtividade. Adicionalmente, a deterioração da relação de troca para aquisição de fertilizantes (como MAP e Ureia) atingiu um dos piores níveis dos últimos cinco anos.
Essa pressão sanitária e financeira acelerou a mudança no mapa da fruta no Brasil. Dados da Secretaria de Agricultura de São Paulo revelam que 50% de todas as mudas produzidas no estado já são destinadas a municípios fora do cinturão citrícola tradicional. O fluxo de expansão direciona-se principalmente para:
Minas Gerais: Absorve 49% das mudas enviadas para fora do cinturão;
Mato Grosso do Sul: Recebe 28% do volume;
Paraná: Concentra 10% do envio;
Goiás e outros estados: Respondem por 13% do total.
Segundo a análise do Itaú BBA, a nova geografia busca fugir da pressão do psilídeo nas regiões tradicionais, mas exige investimentos maciços em irrigação, tecnologia e rigoroso controle fitossanitário para assegurar a rentabilidade futura.
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