O planejamento estratégico da triticultura nacional e as incertezas que cercam o abastecimento da indústria moageira dominaram os debates do 11º Encontro da Cadeia Produtiva do Trigo de São Paulo, promovido na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na capital paulista. O evento reuniu lideranças industriais, produtores e especialistas em um momento marcado por contrastes: enquanto o cereal colhido em São Paulo consolida avanços tecnológicos em força de glúten e panificação, as lavouras sentiram o impacto severo de adversidades meteorológicas ao longo de setembro.
O presidente do Sindicato da Indústria do Trigo no Estado de São Paulo (Sindustrigo), Max Piermartiri, destacou que o planejamento para 2027 precisa considerar tanto os fatores agronômicos quanto o ambiente político e fiscal decorrente das eleições:
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"Temos, de um lado, uma evolução histórica da safra de trigo paulista, tanto em qualidade quanto em volume, e, de outro, os desafios impostos pelo clima do mês de setembro. Além disso, as eleições terão impacto importante no ambiente de negócios de 2027, especialmente na economia. É preciso olhar para todos esses fatores e se preparar para o que vem pela frente", pontuou Piermartiri.
O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, ressaltou a urgência de união institucional diante de temas econômicos complexos, como os debates sobre a jornada de trabalho e a competitividade industrial. Já o secretário-executivo de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, Diogenes Kassaoka, reforçou que o estado concentra o principal mercado consumidor do país e precisa reduzir assimetrias tributárias para incentivar a moagem local.
Perdas no campo e salto nas importações brasileiras
O impacto das intempéries sobre a safra nacional foi detalhado pelo presidente da Associação Brasileira do Trigo (Abitrigo), Daniel Kümmel. Segundo ele, com a produção brasileira estimada em apenas 5,7 milhões de toneladas e parte dos lotes comprometida por danos climáticos, a demanda por trigo importado no país poderá superar as projeções iniciais de 7,5 milhões e aproximar-se de 9 milhões de toneladas.
Kümmel explicou que o trigo paulista e o cereal importado exercem papéis complementares no abastecimento fabril. Pela proximidade logística com os moinhos e pelo padrão superior do grão colhido no interior paulista, a matéria-prima regional é disputada pelo mercado, mas São Paulo terá de ampliar os volumes trazidos da Argentina e do Paraguai para suprir a demanda.
No painel técnico sobre o desempenho estadual, o presidente da Câmara Setorial do Trigo de São Paulo, Ruy Zanardi, enfatizou o potencial agronômico local:
"São Paulo tem capacidade de produzir 800 mil toneladas e é o maior mercado consumidor do Brasil, absorvendo com tranquilidade o trigo nacional. No ciclo anterior, o cereal colhido em São Paulo atingiu o melhor nível de qualidade do Hemisfério Sul, superando o grão produzido em países vizinhos e em outros estados", afirmou Zanardi, ao lado de representantes da Embrapa Trigo, da Secretaria de Agricultura e da Biotrigo.
Panorama Global: trigo russo represado e nova regra argentina
O cenário internacional e o fluxo de vizinhos exportadores encerraram as discussões do encontro. Élcio Bento, analista da consultoria Safras Mercado, alertou para o comportamento da oferta global. Segundo ele, embora os portos do Mar Negro enfrentem gargalos logísticos decorrentes do conflito bélico, o trigo russo não deixou de existir e permanece estocado dentro do país, o que pode exercer forte pressão baixista nas cotações internacionais caso as rotas de exportação sejam restabelecidas.
Na Argentina, Gabriel Gavarrino, representante da Câmara Arbitral da Bolsa de Cereais de Buenos Aires, apresentou os impactos da Resolução Conjunta 3/2026. A norma passa a exigir controle varietal obrigatório nas cargas de caminhão para cultivares registradas a partir de junho de 2026, permitindo que moinhos importadores comprem grãos com base em contratos específicos de cultivares selecionadas.
Gavarrino estimou que, somando um estoque de passagem de 4,5 milhões de toneladas a uma colheita argentina projetada em 22 milhões de toneladas, o país vizinho terá disponibilidade de 26,5 milhões de toneladas, gerando um excedente exportável superior a 16 milhões de toneladas após o consumo interno de 8 milhões.
