A redução dos entraves aduaneiros e a modernização dos fluxos logísticos na fronteira entre o Brasil e o Paraguai foram os temas centrais do Giro Abitrigo – Paraguai, missão técnica promovida pela Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo). A expedição reuniu mais de 45 lideranças de moinhos nacionais e representantes da cadeia do cereal com o objetivo de buscar soluções para o abastecimento doméstico, em um momento em que a burocracia aduaneira encarece a importação e compromete a rentabilidade industrial.
Ao longo do itinerário, a comitiva inspecionou a infraestrutura de travessia e desembaraço de cargas no Terminal Multilog, em Foz do Iguaçu (PR), e no porto seco da Algesa, em Ciudad del Este. A agenda técnica contemplou ainda visitas a campos de trigo em Santa Rita, às unidades de beneficiamento e multiplicação de sementes da Cooperativa Colonias Unidas, em Obligado, e aos campos experimentais da Capeco e da Genepar, onde são testadas cultivares focadas nos parâmetros industriais dos moinhos brasileiros.
Trigo paulista avança em padrão mas sofre perdas com clima
Chuva quebra qualidade do trigo no Sul e eleva importação
Oferta de trigo no Mercosul encolhe 22,7% na safra 2026/27
No encerramento da iniciativa, industriais reuniram-se com autoridades do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), da Receita Federal e do Ministério da Agricultura do Paraguai para cobrar medidas emergenciais de simplificação fiscal e aduaneira.
O peso do custo fronteira nas moegas
O superintendente da Abitrigo, Eduardo Assêncio, ressaltou que as ineficiências operacionais nos postos alfandegários funcionam como uma barreira financeira artificial ao comércio bilateral:
"Colocamos um grande desafio para esse grupo, que é a redução do chamado custo fronteira, hoje uma grande barreira para o estímulo desse comércio. Segundo os operadores locais, estamos falando de quase 20 dólares por tonelada em custos operacionais de travessia. Trata-se de um valor expressivo dentro da precificação do mercado internacional do trigo, e qualquer melhoria operacional trará um estímulo imediato ao comércio entre Paraguai e Brasil."
A agilização desse corredor rodoviário ganha caráter estratégico diante da redução de área plantada de trigo no Sul brasileiro. A migração de agricultores do Paraná para culturas alternativas mais rentáveis de inverno deve forçar o mercado paranaense a importar entre 1,5 milhão e 1,7 milhão de toneladas no ciclo de 2027, colocando o Paraguai como parceiro geográfico natural para o suprimento de moinhos paranaenses e paulistas.
Qualidade do grão e meta de 600 mil hectares
A cadeia agrícola paraguaia projeta retomar o patamar histórico de 600 mil hectares cultivados, apostando no perfil qualitativo exigido pela panificação brasileira. Conforme detalhou o presidente da Capeco, José Berea, o cereal do país vizinho destaca-se pela alta força de glúten (W elevado), atuando como insumo melhorador de farinha nos lotes processados no Brasil.
Lideranças industriais participantes, como André Vosnika, diretor da Moageira Agrícola Irati, e Arnei Antônio Frasson, presidente do Conselho da Infasa e Belarina, ressaltaram que a proximidade física e a aptidão agronômica paraguaia justificam um acordo bilateral ágil para alinhar horários de fiscalização e eliminar retenções desnecessárias de caminhões nos pátios de fronteira.
