O retorno de precipitações volumosas e temporais com acumulados superiores a 100 milímetros no encerramento da primeira semana de novembro paralisou as ceifadeiras e selou um diagnóstico alarmante para a triticultura nos três estados da Região Sul. A umidade contínua no solo e a baixa luminosidade durante a fase de colheita e dessecação deflagraram perdas qualitativas expressivas, inviabilizando grande parte da safra para a indústria de farinhas e forçando o parque moageiro nacional a deflagrar estratégias emergenciais de importação do Mercosul.
No Rio Grande do Sul, onde os trabalhos de colheita atingiram 60% da área projetada, totalizando aproximadamente 1,07 milhão de toneladas recolhidas, o levantamento técnico da TF Agroeconômica revela uma composição desfavorável para a panificação. Do volume estocado até o momento:
Chuva faz safra de trigo de SP desabar para menos de 20% do total
Défice de qualidade no trigo deve elevar importações a 9,5 mi de t
Tipo 1 (PH 78 ou superior): representa somente 16% do total colhido (cerca de 120 mil toneladas);
Tipo 2 (PH 75,0 a 77,9): responde por 66% das cargas;
Tipo 3 ou Fora de Tipo (PH inferior a 74,9): atinge 18% da safra recolhida.
A triagem laboratorial aponta um estrangulamento ainda mais rigoroso: apenas 120 mil toneladas atendem integralmente às exigências técnicas dos moinhos (Falling Number superior a 250 segundos e contaminação pela micotoxina desoxivalenol, o DON, abaixo de 2.000 ppb). Outras 220 mil toneladas são classificadas como lote mediano (FN > 220 e DON até 3.500 ppb), enquanto cerca de 730 mil toneladas apresentam danos fisiológicos severos por umidade (FN abaixo de 220 e DON extrapolando 3.500 a 5.000 ppb), inviabilizando o uso alimentício humano convencional e empurrando os volumes para a queima em fábricas de ração ou usinas de etanol na faixa de R$ 1.200 a R$ 1.400/t CIF.
Escassez inflaciona balcão em SC
Em Santa Catarina, o panorama de recebimento reflete os mesmos entraves climáticos. Do montante colhido até o momento, a maior parte não atinge a classificação comercial exigida pela indústria. As expectativas de salvamento de padrão agronômico recaem sobre as lavouras mais tardias, a partir do polo de Campos Novos, que ainda se encontram em estágio de enchimento de grãos.
A escassez crítica de trigo panificável fez as cotações dispararem nos negócios spot: negócios pontuais de trigo Tipo 1 foram reportados a R$ 1.600,00 por tonelada no interior catarinense. No balcão pago ao produtor, as referências mantêm-se firmes, oscilando entre R$ 78,00 e R$ 80,00 por saca em praças como Chapecó, Xanxerê e Mafra.
Paraná lidera corrida por trigo importado
Diante do colapso da oferta doméstica de qualidade, o Paraná — que necessita de cerca de 3,85 milhões de toneladas para abastecer suas indústrias, mas deve fechar uma safra de apenas 2,2 milhões de toneladas — começou a operar diretamente no mercado externo. Estimativas do setor indicam que apenas 800 mil toneladas do trigo paranaense colhido poderão ser absorvidas como Tipo 1, abrindo um déficit de 1,0 a 2,0 milhões de toneladas a ser suprido exclusivamente via portos ou rodovias internacionais.
Para conseguir barganha de escala e mitigar os custos logísticos, moinhos brasileiros vêm aderindo a grupos de compra coletiva estruturados por consultorias de inteligência de mercado para originação conjunta de trigo argentino e paraguaio.
Atualmente, o trigo argentino posto nos portos brasileiros (com base FOB de US$ 235/t) chega com valor médio CIF moinhos entre R$ 1.714 e R$ 1.731 por tonelada no Paraná e em Santa Catarina, enquanto o trigo paraguaio via transporte rodoviário gira em torno de R$ 1.722 a R$ 1.771/t.
Apesar de o produto externo custar acima do preço nominal do cereal brasileiro no interior, a necessidade mandatória de mescla com trigos de alta força de glúten para assegurar a consistência técnica da farinha torna as importações inevitáveis para as moageiras até a virada de 2027.
