A agenda socioambiental e de governança atravessa um período de revisão e corte de despesas no ambiente corporativo brasileiro. Dados de uma pesquisa conduzida pela Data-Makers com lideranças do setor produtivo revelam que 26% dos executivos pretendem enxugar os aportes em ESG nos próximos 12 meses, percentual superior aos 20% registrados na edição anterior do estudo. O recuo operacional já se reflete no dia a dia dos negócios: 21% das companhias cancelaram iniciativas em andamento e outras 35% congelaram projetos.
O arrefecimento nos desembolsos coincide com um momento em que os tomadores de decisão afirmam dominar melhor o conceito: a proporção de gestores que declaram possuir conhecimento avançado sobre práticas ambientais, sociais e de integridade avançou de 13% para 22%.
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O professor e pesquisador da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), Leonardo Fabris Lugoboni, ressalta que essa aparente contradição decorre da ausência de indicadores operacionais consolidados dentro das estruturas corporativas:
“Quando uma iniciativa é realmente estratégica, não basta saber quanto dinheiro foi investido nela. É necessário conseguir demonstrar quais resultados foram alcançados, quais riscos foram reduzidos e qual valor foi criado para a organização e para seus stakeholders”, avalia Lugoboni.
Pressão de custos atinge RH e comunicação por falta de métricas
O levantamento aponta que as áreas de Recursos Humanos e Comunicação concentram os maiores impactos da retração orçamentária, registrando cancelamentos em programas de inclusão, palestras, treinamentos internos e convênios com entidades sociais. Para o especialista da FECAP, o corte revela a fragilidade de ações tratadas de forma periférica nas empresas.
“Orçamento não é indicador de resultado. Se a principal informação disponível é quanto a empresa gastou com determinada iniciativa, será muito mais difícil defender sua continuidade quando surgir uma pressão por redução de custos. Se o ESG faz parte da estratégia, deve ser tratado como qualquer outra prioridade empresarial: com objetivos claros, metas, responsáveis, acompanhamento e prestação de contas”, pondera Lugoboni.
Flexibilização regulatória da CVM testa comprometimento real
O desaquecimento da pauta ganha novos contornos após mudanças nas diretrizes do mercado de capitais. Em maio de 2026, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) revisou a Resolução CVM 193 e retirou a obrigatoriedade para que companhias abertas adotassem relatórios financeiros de sustentabilidade alinhados aos padrões globais do International Sustainability Standards Board (ISSB) — referências IFRS S1 e IFRS S2, internalizadas no país como CBPS 01 e CBPS 02.
Com a migração para um modelo voluntário sob o princípio de "pratique ou explique", a permanência dos projetos passa a depender exclusivamente do valor econômico e estratégico que entregam internamente:
“Quando diminui a pressão regulatória, fica mais evidente quais empresas realmente incorporaram a sustentabilidade à estratégia e quais iniciativas dependiam essencialmente de estímulos externos. A pergunta mais importante é: a empresa consegue explicar por que está investindo, quais resultados espera alcançar e como sabe se esses resultados foram atingidos?”, conclui o docente.
