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Tecnologia da Embrapa melhora gestão de biofertilizantes suínos

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Tecnologia da Embrapa melhora gestão de biofertilizantes suínos
Um dos diferenciais do sistema é a integração de informações de rastreamento das máquinas e os estabelecimentos agrícolas, tendo por base os dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR). Foto: Lucas Scherer

Ferramenta desenvolvida pela Embrapa usa georreferenciamento para organizar coleta, transporte e aplicação de dejetos suínos, ampliando a conformidade ambiental e a transparência na cadeia

A Embrapa avançou no desenvolvimento de uma nova ferramenta para reforçar a gestão ambiental na suinocultura. Batizado de GeoFert, o sistema digital foi criado para ampliar a rastreabilidade no uso de dejetos suínos como biofertilizantes, permitindo registrar e monitorar etapas como coleta, transporte e aplicação desses resíduos nas propriedades rurais.

A tecnologia utiliza georreferenciamento e foi desenvolvida para atender um dos principais desafios da produção intensiva de suínos: garantir a destinação correta dos efluentes e comprovar, de forma segura e organizada, o cumprimento das exigências ambientais previstas no pós-licenciamento.

Concebido dentro do projeto SMART, voltado à gestão ambiental em áreas com produção intensiva de animais na Região Sul, o sistema está em fase de validação com parceiros privados antes de ser transferido de forma mais ampla para a cadeia suinícola.

Manejo dos dejetos segue como desafio na suinocultura intensiva

Em regiões com alta concentração de granjas, como o oeste de Santa Catarina, o manejo de dejetos suínos segue como um dos pontos mais sensíveis da atividade.

Isso porque cerca de 95% dos resíduos gerados são líquidos e acabam sendo destinados à fertilização do solo. Embora esses materiais sejam ricos em nutrientes e tenham papel importante na manutenção da fertilidade, o uso inadequado pode trazer riscos ambientais relevantes, como contaminação de recursos hídricos e degradação do solo.

Nesse cenário, a sustentabilidade da suinocultura depende de uma gestão que una produção, meio ambiente e exigências regulatórias, especialmente em sistemas mais intensivos.

Ferramenta mira etapa crítica do pós-licenciamento

Em Santa Catarina, o licenciamento ambiental de granjas já conta com apoio do Sistema de Gestão Ambiental da Suinocultura (SGAS), também desenvolvido pela Embrapa Suínos e Aves. O sistema é utilizado para calcular a excreção animal, estimar a oferta de nutrientes, dimensionar estruturas e orientar a adubação, ajudando a padronizar e agilizar o licenciamento no estado.

No entanto, segundo a Embrapa, a fase mais crítica continua sendo o pós-licenciamento, quando o produtor precisa comprovar que a destinação dos efluentes está sendo feita conforme previsto na Licença de Operação.

Esse desafio se torna ainda maior em granjas que utilizam áreas de terceiros para aplicação dos resíduos ou dependem de frotas públicas, como as de prefeituras e associações de máquinas, para o transporte dos dejetos.

Nesses casos, a necessidade de controle, transparência e rastreabilidade se intensifica, já que muitos municípios ainda trabalham com registros manuais ou sistemas fragmentados.

GeoFert registra todas as etapas da operação

Para preencher essa lacuna, o GeoFert foi desenhado para programar, registrar e verificar cada etapa da aplicação dos biofertilizantes. O sistema reúne informações sobre a origem dos efluentes nas granjas, as propriedades que recebem o material, os horários e datas das aplicações e também as coordenadas geográficas das áreas fertilizadas.

Com isso, a ferramenta cria um histórico digital completo das operações, fortalecendo a capacidade de auditoria e a comprovação do cumprimento das normas ambientais.

Integração com o CAR é um dos diferenciais

Um dos principais diferenciais do GeoFert é a integração entre o rastreamento das máquinas e os estabelecimentos agrícolas a partir dos dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR).

Na prática, isso permite cruzar as informações operacionais com as áreas cadastradas, o que tende a aumentar a segurança jurídica, a conformidade legal e a precisão no acompanhamento das aplicações.

Além disso, o sistema foi desenhado especificamente para atender as necessidades da cadeia suinícola, diferentemente de soluções genéricas de rastreamento de frota, complementando as funcionalidades do SGAS e ampliando o controle sobre a execução das atividades no campo.

Sistema traz ganhos para produtores, municípios e órgãos ambientais

Segundo a Embrapa, a adoção do GeoFert pode gerar uma série de benefícios para diferentes elos da cadeia. Entre os principais ganhos estão o reforço da conformidade ambiental, a geração de evidências auditáveis para órgãos de fiscalização, a ampliação da transparência no uso de recursos públicos em operações feitas por prefeituras ou estruturas conveniadas e uma gestão mais inteligente, com apoio de mapas, gráficos, tabelas e painéis para a tomada de decisão.

O sistema pode ser utilizado por produtores rurais, consultorias, empresas de assistência técnica, prefeituras, associações de máquinas, prestadores de serviços agrícolas e órgãos ambientais.

Validação já começou em município de Santa Catarina

O GeoFert ainda está em fase de validação, por meio de acordos de cooperação técnica, mas já começou a ser testado na prática.

Em agosto de 2025, o município de Presidente Castello Branco (SC) se tornou o primeiro a implementar oficialmente a ferramenta. Com isso, houve a automatização das solicitações de serviços e a digitalização de informações que antes eram registradas manualmente.

A fase de validação conta com parceria da empresa Ekodata Tecnologia e Saneamento Ambiental, responsável pela implantação do sistema, treinamento dos usuários e acompanhamento dos testes, além da possibilidade de sugerir melhorias e customizações.

Tecnologia pode fortalecer sustentabilidade da suinocultura familiar

A expectativa da Embrapa é que o GeoFert represente um avanço importante para a sustentabilidade da suinocultura familiar, especialmente na Região Sul.

Ao reforçar a rastreabilidade no uso dos biofertilizantes, a ferramenta tende a ampliar a responsabilidade ambiental, melhorar a eficiência das políticas públicas de apoio ao setor e oferecer mais segurança para produtores e gestores públicos no cumprimento das exigências regulatórias.

Para uma cadeia cada vez mais pressionada por produtividade e conformidade ambiental, a digitalização desse processo pode se tornar um diferencial estratégico no manejo dos resíduos e na valorização da atividade.