Projeto da Embrapa busca reduzir perdas por seca no Semiárido

Iniciativa CaatÁgua vai desenvolver bioinsumos e estratégias de controle biológico para reduzir perdas da agricultura familiar no Semiárido e fortalecer sistemas agroecológicos
Projeto da Embrapa busca reduzir perdas por seca no Semiárido
Projeto CaatÁgua, da Embrapa, vai testar bioinsumos e controle biológico em propriedades de agricultores familiares do Semiárido. Foto: Saulo Coelho
Foto do autor Francieli Galo
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A Embrapa iniciou um novo projeto de pesquisa voltado a um dos principais desafios da agricultura familiar no Semiárido brasileiro: as perdas de produtividade causadas pela seca. Batizada de CaatÁgua, a iniciativa pretende desenvolver um bioinoculante capaz de aumentar a tolerância das plantas ao estresse hídrico e adaptar tecnologias de controle biológico de pragas às condições climáticas da região.

Com duração prevista de 36 meses, o projeto reúne equipes de diferentes unidades da Embrapa e parceiros de cinco estados brasileiros. A proposta foi aprovada no edital Cadeias Socioprodutivas da Agricultura Familiar e Sistemas Agroalimentares (ICT), da Finep, e busca levar soluções práticas diretamente para a realidade das propriedades familiares do Semiárido.

Foco está em reduzir perdas e aumentar a estabilidade produtiva

O objetivo central do projeto é atuar em dois gargalos que afetam fortemente a produção rural na região: a estiagem prolongada e a pressão de insetos-praga em anos com melhor regime de chuvas.

Segundo a Embrapa, a proposta combina tecnologias microbianas com estratégias de manejo integrado de pragas, buscando ampliar a eficiência no uso da água, reduzir perdas nas lavouras e melhorar a estabilidade produtiva das propriedades familiares.

A expectativa é que os resultados contribuam para o fortalecimento de culturas essenciais no Semiárido, como feijão-caupi, milho e algodão, além de ampliar a segurança alimentar das famílias rurais.

Bioinsumos terão como base microrganismos da Caatinga

Parte das soluções do projeto tem origem em pesquisas já desenvolvidas pela Embrapa Meio Ambiente, que criou o bioestimulante Auras, a partir da bactéria Priestia aryabhattai. O produto vem sendo estudado como alternativa para amenizar os efeitos da estiagem e foi desenvolvido com base em microrganismos isolados no bioma Caatinga.

Essa coleção microbiana, considerada uma das mais diversas do país, vem sendo estudada há anos por pesquisadores da unidade e já deu origem a biofertilizantes, biofungicidas e bioinseticidas com potencial de uso agrícola.

No projeto CaatÁgua, a proposta é transformar essa biodiversidade em ferramenta prática para aumentar a resistência das plantas em condições de pouca água.

Controle biológico será adaptado às condições do Semiárido

Outro eixo importante do projeto envolve o controle biológico de pragas. Pesquisadores da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, da Embrapa Algodão e da Embrapa Meio Ambiente vão avaliar e adaptar linhagens de fungos entomopatogênicos, microrganismos capazes de infectar e controlar insetos-praga.

Essas tecnologias serão ajustadas para a realidade da agricultura familiar do Semiárido, marcada por altas temperaturas, pouca irrigação e acesso limitado a equipamentos agrícolas.

A intenção é oferecer alternativas compatíveis com sistemas produtivos de menor escala e com modelos de produção orgânicos e agroecológicos.

Testes serão feitos diretamente nas propriedades rurais

A validação das tecnologias será realizada em parceria com a Rede Borborema de Agroecologia, organização formada por agricultores familiares da Paraíba.

A rede reúne produtores que atuam com sistemas agroecológicos e com o cultivo de algodão orgânico em consórcios com culturas alimentares, e parte dos experimentos será conduzida diretamente nas propriedades, em um modelo de pesquisa participativa.

Esse formato busca garantir que os bioinsumos e protocolos desenvolvidos sejam testados em condições reais de produção e possam ser adaptados de forma mais eficiente à rotina dos agricultores familiares.

Culturas estratégicas devem ser beneficiadas

De acordo com a Embrapa, mais de 70% das áreas cultivadas por agricultores familiares no Semiárido são ocupadas por feijão-caupi e milho.

Por isso, ao reforçar a resiliência dessas culturas e também fortalecer o cultivo agroecológico do algodão, o projeto pretende reduzir perdas e ampliar a estabilidade da produção de alimentos e de renda nas propriedades.

Parte dos microrganismos utilizados nos estudos foi isolada de raízes de plantas nativas da Caatinga, reconhecidas pela própria população local por sua resistência à seca, como o mandacaru.

A proposta é justamente usar a biodiversidade do bioma como base para soluções adaptadas às condições extremas da região.

Projeto também fortalece sistemas agroecológicos no Nordeste

Além do foco em tolerância à seca, o CaatÁgua também deve contribuir para a consolidação dos Consórcios Agroecológicos do Algodão, sistemas produtivos já utilizados no Nordeste que integram o cultivo da fibra com alimentos como feijão, milho e gergelim.

Esse modelo amplia a diversidade produtiva das propriedades e ajuda a fortalecer a renda das famílias.

O projeto também prevê o aperfeiçoamento de protocolos de manejo integrado de pragas com o uso de entomopatógenos e parasitoides, alternativas que se encaixam em sistemas orgânicos e agroecológicos.

Tecnologia pode gerar ganhos ambientais e sociais

A expectativa é que as soluções desenvolvidas tragam benefícios que vão além do aumento da produtividade. Entre os impactos esperados estão a redução das perdas provocadas pela seca, a menor dependência de insumos químicos e a diminuição do risco de contaminação do solo e da água. O projeto também pode contribuir para reduzir o impacto sobre polinizadores e inimigos naturais das pragas, além de fortalecer a segurança alimentar das famílias rurais.

Durante os três anos de execução, o projeto também vai promover cursos, oficinas e materiais educativos voltados aos agricultores participantes.

A meta é formar multiplicadores de práticas sustentáveis e fortalecer redes comunitárias já existentes.

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