A implementação do Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) impõe uma profunda reformulação operacional para as empresas brasileiras voltadas ao mercado internacional. A norma estabelece critérios rigorosos de rastreabilidade e segregação de origem para sete cadeias essenciais do agronegócio: soja, carne bovina, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma. Sob a nova regra, os exportadores devem apresentar comprovações documentais auditáveis de que os produtos não foram cultivados em áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020, mesmo sob supressão vegetal legalmente permitida pelo Código Florestal Brasileiro.
O impacto da medida altera a rotina comercial e transfere o peso da fiscalização para a gestão de dados. A entrega da carga nos portos passa a depender da consolidação prévia de coordenadas geográficas de cada polígono produtivo, mapeamento completo de fornecedores diretos e indiretos, histórico de conformidade ambiental e documentação de posse ou titularidade da terra.
Sobretaxa da China na carne exige novos mercados para o agro
CNA e Marrocos debatem parceria em pesquisa e fertilizantes
Brasil abre mercados em quatro países para itens do agro
A sócia-diretora da consultoria Strategi, Andressa Boen, pontua que a adaptação precisa ser tratada como prioridade de governança corporativa:
"O novo cenário reforça a necessidade de incorporar sustentabilidade, governança e gestão de riscos à estratégia empresarial, especialmente entre companhias que pretendem preservar ou ampliar sua presença no mercado europeu", avalia Boen.
Governança, ESG e o peso do compliance na originação
A especialista destaca que a barreira técnica europeia transforma práticas de sustentabilidade e critérios ESG em ferramentas de acesso a mercados. No modelo anterior, bastava à trading atestar a legalidade básica dos lotes; agora, a ausência de uma trilha documental verificável pode inviabilizar a atracação de navios em portos como Roterdã e Antuérpia, gerando multas severas e cancelamento de contratos de suprimento.
Para as cooperativas, agroindústrias e tradings nacionais, os principais cuidados concentram-se na auditoria da cadeia indireta. Enquanto as grandes propriedades do Cerrado e do Sul já utilizam ferramentas avançadas de monitoramento por satélite, o risco de contaminação de lotes recai sobre a compra de grãos e gado de fornecedores intermediários ou pequenos produtores que ainda não estruturaram o georreferenciamento cadastral.
O compliance socioambiental deixa de ser uma demanda institucional e converte-se em fator crítico de competitividade: empresas com sistemas consolidados de governança digital e originação transparente asseguram espaço contínuo no bloco europeu, enquanto operadores desorganizados enfrentarão o deságio comercial ou a exclusão das janelas de exportação para a Europa.
