Triticale no Cerrado abre mercado na indústria de alimentos

Ensaios comprovam que a farinha do cereal pode substituir o trigo em até 100% no fabrico de bolachas e biscoitos
Triticale no Cerrado abre mercado na indústria de alimentos
Parceria entre Embrapa Trigo e indústria mineira valida qualidade do cereal para a panificação Foto: Alfredo do Nascimento Jr
Foto do autor Cássia Lombardi
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As análises de qualidade industrial conduzidas em 2026 consolidaram uma nova fronteira para o aproveitamento do triticale na alimentação humana. Ensaios de panificação e confeitaria realizados pela empresa mineira Vilma Alimentos, em cooperação técnica com a Embrapa Trigo, demonstraram a viabilidade técnica de substituição da farinha de trigo pela farinha de triticale na fabricação de produtos de confeitaria, com destaque para a indústria de biscoitos e bolachas.

"Avaliamos a aplicação da farinha de triticale em 11 produtos. Os testes mostraram que é possível utilizá-la em seis deles, sendo que em dois foi possível substituir totalmente a farinha de trigo pela farinha de triticale sem perder qualidade", explica o diretor técnico da Vilma Alimentos, Sérgio Gonçalves.

Segundo a investigadora da Embrapa Trigo, Jane Machado, o nicho de biscoitos e bolachas desponta como o mercado preferencial para o cereal cultivado no Cerrado:

"O triticale garante a crocância e a firmeza dos biscoitos, permitindo eliminar o uso de aditivos químicos para atingir esses atributos."

A investigadora pontua ainda que os grãos do cereal, inteiros ou moídos, possuem aptidão direta para a formulação de cereais matinais e produtos dietéticos. Na produção de biscoitos moldados, a substituição da farinha de trigo atinge 100%, preservando a expansão da massa e os atributos sensoriais da receita original. Na panificação tradicional, a formulação recomendada é de 50% de trigo e 50% de triticale, limitada a pães de baixo crescimento devido à menor força de glúten. Já nos biscoitos laminados doces, como o tradicional biscoito de maisena, a troca atinge até 30% sem alterar textura, cor e paladar.

Da ração animal aos alimentos funcionais

Criado geneticamente a partir do cruzamento entre o trigo e o centeio, o triticale combina a qualidade industrial do primeiro com a rusticidade e a tolerância a intempéries do segundo. Introduzido no Brasil na década de 1980 pela Embrapa Trigo a partir de linhagens do Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo (Cimmyt), o cereal concentrou-se historicamente no Sul do país como forragem de inverno e insumo de rações para suínos e aves.

A primeira cultivar comercial genuinamente brasileira, a BRS Minotauro, foi registada em 2005. Atualmente, o país conta com 24 cultivares registadas no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). A transição do cocho dos animais para a mesa dos consumidores ganhou velocidade nos últimos anos alavancada pela procura de alimentos funcionais e integrais.

Desempenho agronómico supera expectativas em Minas Gerais

O potencial produtivo no Cerrado foi colocado à prova no campo em 2026. Na Fazenda Lagoa, situada em Carandaí, na Zona da Mata mineira, foram implantados oito hectares experimentais sob irrigação, contemplando as cultivares BRS Piapara, BRS Saturno, BRS Surubim, BRS Tambaqui, BRS TL 51 e BRS Zênite (desenvolvidas pela Embrapa e Fundação Meridional), além de IPR Aimoré e IPR Goitacá (obtidas pelo IDR-Paraná).

Semeado em maio e colhido em setembro, o ensaio superou a média habitual de três a quatro toneladas por hectare observada na região:

"As parcelas de triticale chamaram a atenção dos produtores da região, mostrando excelente sanidade e com espigas bem formadas. O rendimento de grãos passou das cinco toneladas por hectare em algumas parcelas", destaca o engenheiro agrónomo Luiz Tarcísio Behm.

Além da performance irrigada, o cereal posiciona-se como alternativa para o cultivo de sequeiro no outono e inverno, conforme aponta o investigador da Embrapa Trigo, Osmar Conte:

"O triticale tem boa tolerância à seca, com plantas de raízes profundas, bem adaptadas a solos ácidos e arenosos."

Com a continuidade dos testes industriais e agronómicos, a expectativa das entidades de pesquisa é que a cultura passe a figurar formalmente nas estatísticas agrícolas oficiais do Cerrado nos próximos ciclos.

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