A Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), instituição de ensino e pesquisa que serviu de alicerce para a modernização do campo brasileiro desde o fim do século 19, ganhou uma plataforma digital dedicada a resguardar a sua trajetória. Coordenado pelo artista visual e egresso da escola Paulo José Franco Neto, conhecido como Pazé, o Portal Luiz de Queiroz foi lançado oficialmente na Sala da Congregação da universidade, em Piracicaba (SP), integrando o calendário comemorativo dos 125 anos da instituição.
Desenvolvido pela empresa Memória Web com acesso livre e irrestrito ao público, o portal reunirá gradativamente cerca de 30 mil documentos históricos. O recorte temporal abrange desde a concepção da escola agrícola até 1934, ano em que a Esalq consolidou-se como uma das unidades fundadoras da Universidade de São Paulo (USP).
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"O projeto tem uma enorme importância para as ciências agrárias do país, por trazer a história do ensino e da pesquisa que foram os alicerces da Revolução Agrícola Brasileira", pontua Pazé.
O acervo reúne correspondências oficiais, atas, relatórios científicos e projetos de infraestrutura que atestam a construção do campus como um projeto de Estado, impulsionado por lideranças paulistas e sucessivos secretários da Agricultura. Um dos pontos centrais da pesquisa documental é o resgate biográfico de Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz, esposa de Luiz de Queiroz, cuja atuação e doação patrimonial foram determinantes para que a fazenda São João da Montanha se transformasse na escola superior.
Acessibilidade universal e tecnologia aberta
O ambiente digital foi desenhado para garantir inclusão, permitindo navegação plena por pessoas com deficiência visual, auditiva, motora ou cognitiva. A iniciativa contrapõe-se à realidade da internet brasileira: levantamento da BigDataCorp com o Movimento Web para Todos (WPT) aponta que apenas 2,9% dos sites no país dispõem de ferramentas efetivas de acessibilidade.
A infraestrutura foi construída sobre o software livre Tainacan, plataforma de repositório digital concebida por uma rede colaborativa encabeçada pela Universidade de Brasília (UnB), com apoio da Universidade Federal de Goiás (UFG), do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) e do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).
"O banco de dados Tainacan tem uma interface muito intuitiva, de fácil uso para fazer consulta e busca avançada no acervo. Nesse primeiro bloco de trabalho já trouxemos para o portal, por exemplo, a Revista Agrícola, porque tem todos os textos do Luiz de Queiroz. Também colocamos integralmente a revista O Sol", ressalta o coordenador.
O projeto mobilizou 25 profissionais na equipe técnica direta e outros 150 colaboradores indiretos. A reconstituição historiográfica e a redação da linha do tempo foram executadas pelos historiadores Carlos Eduardo de Freitas Vian, Eliana Tadeu Terci, Alexandre Macchione Saes, Roney Cytrynowicz, Marly Germano Perecin, Fabiana Junqueira e pelo próprio Pazé.
Parceria público-privada e financiamento cultural
Idealizada em 2020 pelo ex-aluno Marcos Fogagnoli em conjunto com Barbara Daniselli, sócia da Memória Web, a iniciativa começou a ser estruturada em novembro de 2025. O projeto foi aprovado pelo Ministério da Cultura via Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac nº 243545) da Lei Rouanet.
O financiamento contou com cotas de patrocínio da Usina São Martinho, Caterpillar, John Deere, Rabobank e Itaú BBA, além do suporte institucional da Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (Fealq) e da Associação dos Ex-Alunos da Esalq (Adealq). A viabilização da plataforma também recebeu aportes de financiamento coletivo mantido por repúblicas tradicionais de estudantes e ex-alunos, por meio da aquisição de réplicas artísticas em bronze do Edifício Central da Esalq. O acervo completo pode ser consultado no endereço memoria.esalq.usp.br.
