Um levantamento científico conduzido pela Embrapa Meio Ambiente com fungos do gênero Trichoderma coletados em solos do semiárido brasileiro identificou linhagens nativas com dupla aptidão estratégica: elevada eficiência no biocontrole de patógenos radiculares e tolerância a temperaturas extremas de até 40 °C. As amostras foram obtidas em áreas de vegetação nativa preservada e em perímetros irrigados de produção intensiva de melão nos estados da Bahia e do Piauí.
Ao todo, os pesquisadores catalogaram 14 isolados distribuídos em cinco espécies: Trichoderma asperellum, Trichoderma asperelloides, Trichoderma koningiopsis, Trichoderma virens e Trichoderma spirale. O trabalho demonstra que a microbiota subterrânea da Caatinga desenvolveu adaptações evolutivas cruciais para sobreviver ao déficit hídrico e ao estresse térmico, características que credenciam esses microrganismos para o desenvolvimento de biofungicidas sob medida para regiões semiáridas.
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A expansão de lavouras irrigadas de alto valor agregado no Nordeste elevou a incidência de podridões radiculares e murchas vasculares causadas por fungos e oomicetos de solo como Fusarium, Macrophomina, Rhizoctonia e Pythium. Para o pesquisador Gabriel Mascarin, da Embrapa Meio Ambiente, entender essas interações ecológicas é a chave para a transição biológica:
"Compreender as interações ecológicas de microrganismos benéficos com patógenos é fundamental para se criar estratégias agrícolas menos dependentes de fungicidas químicos e mais resilientes às mudanças climáticas."
Resistência térmica e mecanismos antagônicos
O ensaio revelou que os isolados provenientes de talhões comerciais sob irrigação demonstraram maior termotolerância do que as cepas de mata nativa. Em estufas laboratoriais, enquanto o crescimento foi equivalente a 25 °C e 30 °C, os isolados agrícolas de T. asperellum, T. asperelloides e T. virens mantiveram pleno vigor a 35 °C e continuaram viáveis a 40 °C. Essa plasticidade é um diferencial competitivo frente a bioinsumos comerciais tradicionais formulados a partir de cepas de clima temperado, que perdem eficácia de campo sob sol forte.
Na supressão de fitopatógenos, o estudo constatou estratégias distintas conforme o alvo:
Confronto direto e micoparasitismo: Mais eficaz contra Rhizoctonia solani e Macrophomina phaseolina, onde o Trichoderma colonizou e estrangulou as colônias patogênicas por competição espacial e consumo de nutrientes;
Emissão de compostos voláteis: Predominou na contenção de Pythium myriotylum e Fusarium solani, inibindo em mais de 70% o avanço micelial das doenças mesmo sem contato físico entre os fungos;
Destaque agronômico: A espécie Trichoderma koningiopsis apresentou o melhor desempenho balanceado, atuando com eficiência uniforme contra todos os alvos biológicos testados.
Desafio da esporulação industrial e próximos passos
O estudo também avaliou o rendimento industrial para formulação de bioinsumos comerciais, processo tradicionalmente realizado via fermentação sólida em arroz parboilizado. Cepas de T. asperelloides e T. asperellum geraram mais de 1,4 bilhão de conídios viáveis por grama, patamar ideal para escala fabril. Em contrapartida, alguns isolados com alta agressividade contra pragas demonstraram baixa capacidade esporuladora, exigindo seleção criteriosa da indústria para conciliar efeito de choque na lavoura com rendimento na biofábrica.
A pesquisa detectou ainda que a composição química do solo modula essas comunidades: solos com maior teor de fósforo e matéria orgânica favorecem T. virens e T. asperellum, enquanto solos ácidos e ricos em ferro abrigam predominantemente T. spirale.
Conforme Wagner Bettiol, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, as próximas etapas envolverão validação agronômica a campo em polos frutícolas e formulação de consórcios microbianos para que os fungos da Caatinga atuem simultaneamente na proteção sanitária das raízes e na promoção de crescimento vegetal.
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