Após colapso no início da guerra, mercado de trigo volta à normalidade

A Ucrânia segue ativa nas exportações, mesmo após a Rússia ter abandonado, em julho de 2023, o acordo que garantia o embarque dos grãos pelos portos do Mar Negro
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Publicado em 23/02/2024

Como qualquer setor do agronegócio, o mercado do trigo é afetado por diversos fatores, entre eles os conflitos mundiais. Desde o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, os mercados globais de trigo, milho e fertilizantes sofreram grande abalo. Agora, dois anos após início o conflito, vemos um ambiente com oferta confortável desses produtos e preços estabilizados.

Apesar da continuidade da guerra que eclodiu em 24 de fevereiro de 2022, o mundo não deve enfrentar escassez dessas commodities. E o trigo, principal cultivo agrícola da Rússia, chegou a atingir o recorde de US$ 12,94 o bushel na bolsa de Chicago após o início da guerra. Mas perdeu fôlego desde então, cehgando no dia 22 a fechar o pregão a US$ 5,78.
Vvários fatores levaram ao novo cenário no mercado de trigo, entre eles a oferta crescente na Rússia, o maior produtor global do cereal
Vvários fatores levaram ao novo cenário no mercado de trigo, entre eles a oferta crescente na Rússia, o maior produtor global do cereal

Alef Dias, analista de grãos e macroeconomia da Hedgepoint Global Markets, diz que vários fatores levaram ao novo cenário no mercado de trigo. O mais importante é a oferta crescente na Rússia, o maior produtor global do cereal.

“Desde a safra 2021/22, os russos estão produzindo acima das 90 milhões de toneladas de trigo, e as projeções para 2024/25 [em fase de plantio] indicam um volume de quase 94 milhões de toneladas. Nesse mesmo período o país também elevou as exportações e deve disponibilizar ao mercado 50 milhões de toneladas neste ciclo [2023/24]”, afirma.

O segundo fator é o desempenho da produção de trigo na Ucrânia. A área destinada ao cereal passou de 7,4 milhões de hectares (última safra antes do início da guerra) para 5,1 milhões de hectares em 2023/24. A despeito do recuo na área, o rendimento foi recorde neste ciclo, de 4,6 toneladas por hectare, bem acima dos 3,8 toneladas por hectare da safra anterior.
“Os ucranianos conseguiram elevar sua produtividade, mesmo com o menor uso de fertilizantes aplicados nesta safra, pois o clima foi extremamente favorável aos cultivos”, afirma Alef Dias.

Outro motivo que fez os preços caírem foi que Ucrânia segue ativa nas exportações, mesmo após a Rússia ter abandonado, em julho de 2023, o acordo que garantia o embarque dos grãos pelos portos do Mar Negro. O envio de mercadorias ainda acontece pelo porto de Odessa, no Mar Negro, mas grande parte do trigo e outros grãos têm sido exportada via portos do rio Danúbio, diz o analista.

“Dentro do acordo, havia muita demora nas inspeções de navios ucranianos por autoridades russas. Depois do fim do pacto, as exportações da Ucrânia pelo Mar Negro estão agilizadas”, observa ele.
Dados da consultoria mostram que o escoamento ganhou vazão após o fim do acordo. No terceiro trimestre de 2023, o último com os envios sob o acordo, 268 navios carregados com trigo deixaram os portos da Ucrânia pelo Mar Negro. Já no quarto trimestre, o número de embarcações subiu para 373.

Diante de melhores condições para o escoamento, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) elevou para 15 milhões de toneladas sua projeção para exportações de trigo da Ucrânia em 2023/24, alta de 7,1% em relação à estimativa de janeiro.


Milho

No caso do milho, a guerra teve o efeito de recrudescer o cenário de oferta apertada e preços em alta que imperava em 2022. Com o conflito na Ucrânia, quarto maior exportador mundial, o cereal bateu US$ 8,13 o bushel em Chicago. Ontem, os contratos de segunda posição fecharam a US$ 4,24 o bushel, quase a metade do pico.

“À época, tínhamos uma pressão inflacionária, que se arrastava desde a pandemia [de covid-19]. Isso culminou com a quebra na safrinha de milho no Brasil em 2021/22”, lembra João Pedro Lopes, analista de inteligência de mercado da StoneX.

Mas de 2022 até agora, o cenário para a oferta de milho mudou. Em razão principalmente do aumento da produção americana na safra 2023/24, que deve alcançar 389,69 milhões de toneladas . Além da recuperação da colheita argentina.

“Os problemas logísticos para as exportações da Ucrânia não foram 100% solucionados, mas estão contornados. Toda aquela incerteza e dificuldade em relação às exportações do país não são mais uma realidade”, diz Lopes.

O USDA estimou, este mês, que as exportações ucranianas de milho devem somar 23 milhões de toneladas na safra 2023/24, acréscimo de 2 milhões sobre o projetado em janeiro.



Fertilizantes

O mercado de fertilizantes também voltou a uma certa normalidade dois anos após início do conflito. Quando a guerra estourou, os preços subiram 200%, segundo a StoneX. Além de a Rússia ser uma grande produtora desses insumos, o conflito afetou o escoamento aos mercados, como o Brasil, que deles dependem.

Segundo a StoneX, em 2021, a tonelada do cloreto de potássio era negociada abaixo de US$ 300, mas chegou ao pico de US$ 1.200 entre março e maio de 2022. Antes da guerra, a ureia também era cotada abaixo de US$ 300 a tonelada, porém em março de 2022 superou US$ 1.000 a tonelada.

Marcelo Melo, coordenador de fertilizantes da StoneX, observa que o nível de preços do NPK nos primeiros meses de conflito atingiu o maior nível desde 2008. A alta foi sentida por produtores, que vinham desde 2020 tentando driblar o encarecimento do adubo em decorrência da pandemia, que afetou as cadeias de fornecimento.

Com a disparada dos preços, houve uma “destruição da demanda”, segundo analistas. Com exceção da Índia e da China, o mercado reduziu o consumo de fertilizantes, contribuindo para a queda nos preços. Além da diminuição inicial da demanda, a normalização do fornecimento em 2023 também fez as cotações retomarem níveis vistos antes do início da guerra.


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