El Niño e geopolítica desafiam margens do agro

Retorno irregular de chuvas no Centro-Oeste, arroba do boi perto de R$ 400 sob alerta de reposição cara e escalada da ureia a US$ 470 por tensão no Oriente Médio
El Niño e geopolítica desafiam margens do agro
Avanço das chuvas destrava plantio da soja no Centro-Oeste, mas irregularidade climática ameaça janela do milho.
Foto do autor Cássia Lombardi
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O agronegócio brasileiro inicia o último trimestre de 2026 em meio a um delicado equilíbrio entre a recomposição de preços no mercado internacional, a irregularidade climática trazida pelo El Niño e a pressão geopolítica sobre insumos essenciais. É o que aponta a edição de outubro do relatório Agro Mensal da Consultoria Agro do Itaú BBA. O estudo detalha os vetores que definem a rentabilidade das principais cadeias produtivas, ressaltando que, embora a semeadura de verão ganhe ritmo, o calendário mais apertado para as culturas de segunda safra e a volatilidade nos custos de fertilizantes exigem disciplina rigorosa na gestão de risco da porteira para dentro.

Clima e grãos: soja acelera, mas alerta recai sobre a safrinha

Após um início marcado por estiagem prolongada, as chuvas retornaram ao Centro-Oeste na virada de setembro para outubro, permitindo a recuperação da umidade do solo e a aceleração dos trabalhos de campo. Conforme levantamento do Itaú BBA, o plantio nacional de soja atingiu 15,6% da área até 9 de outubro. O destaque absoluto é Mato Grosso, que saltou de 10,2% para 33,3% da área em apenas uma semana — impulsionado pelo Médio-Norte (50,2%) e Oeste (41,8%).

Apesar da recuperação, o regime de chuvas sob influência do El Niño segue desigual no Centro-Oeste e com início lento no Matopiba, enquanto o Sul enfrenta episódios de precipitação excessiva. Segundo os analistas do banco, o risco mais relevante não recai sobre a soja de verão, mas sobre o milho e o algodão de segunda safra, que podem ter sua janela ideal de plantio encurtada caso o calendário da oleaginosa atrase ou as águas cessem precocemente no próximo outono. No mercado da soja, as cotações em Chicago foram sustentadas em setembro pela aceleração das compras da China, que acumulou 13 milhões de toneladas da safra norte-americana 2026/27. Em Sorriso (MT), a saca atingiu média de R$ 142 em setembro (+9,6%), amparada por prêmios portuários e embarques nacionais firmes.

Já no milho, o cenário externo mudou após o USDA elevar a produção dos Estados Unidos para 407,3 milhões de toneladas, ampliando os estoques finais globais para 280,4 milhões de toneladas e aumentando a concorrência direta com o produto brasileiro. Internamente, as exportações brasileiras de milho acumulam recuo anual de 21,5% entre fevereiro e setembro (15,5 milhões de toneladas), mantendo os preços pressionados nos balcões do interior.

Pecuária: boi gordo ruma a R$ 400, mas reposição exige proteção

No segmento de proteína animal, a oferta restrita de gado para abate alavancou o mercado físico. No início de outubro, o boi gordo em São Paulo atingiu R$ 376 por arroba (+9,3% no ciclo recente), impulsionado pela necessidade dos frigoríficos de formar estoques para exportação, mesmo após um mês de setembro com redução expressiva das compras da China, compensadas parcialmente pelo salto nas exportações para os Estados Unidos (44 mil toneladas).

Na B3, a curva futura do boi gordo ampliou ganhos expressivos, com contratos a partir de novembro se aproximando da barreira de R$ 400 por arroba. O Itaú BBA ressalta que o momento atual representa uma janela estratégica para fixação de preços e hedge, visto que a arroba brasileira em torno de US$ 75 atinge patamares nominais recordes e o atacado doméstico começa a limitar repasses. O alerta central do banco recai sobre a alta contínua nos preços de reposição (bezerro), que demandará preços elevados do boi gordo nos próximos anos para evitar a compressão das margens de confinamento.

Nas demais proteínas, a avicultura desfruta de margens confortáveis no mercado interno, com o preço da ave abatida superando os custos de produção e ampliando o spread da agroindústria de 32% para 37%. Já a suinocultura, apesar de registrar alta de até 40% nos preços da carcaça desde as mínimas de agosto, segue em terreno negativo de rentabilidade devido aos custos de ração e abates elevados no mercado doméstico.

Setor sucroenergético: açúcar rompe 21 centavos e etanol enfrenta impasse tributário

O mercado sucroenergético vive momentos de alta volatilidade. O contrato de açúcar bruto com vencimento em março de 2027 em Nova York superou a faixa dos 21 centavos de dólar por libra-peso. A sustentação decorre de um aperto severo na oferta mundial: a Comissão Europeia cortou a produtividade de beterraba após ondas de calor, a Índia encerrou setembro com estoques no menor nível em mais de uma década (3,8 milhões de toneladas) e chuvas intensas no Centro-Sul brasileiro fizeram usinas paulistas perderem de 8 a 10 dias de moagem na primeira quinzena de setembro.

No etanol, o preço do hidratado nas destilarias paulistas manteve-se sustentado em R$ 2,64 por litro, sustentando paridade de 60,7% frente à gasolina. O foco de curto prazo do setor, no entanto, deslocou-se inteiramente para a esfera regulatória em Brasília: a isenção temporária de tributos federais sobre a gasolina e o aumento da subvenção ao hidratado até novembro mantêm o mercado atento a possíveis revisões de preços nas refinarias da Petrobras e à modelagem do novo regime tributário via IBS e CBS.

Insumos: conflito no oriente médio dispara ureia a US$ 470/t

Na ponta dos custos, o mercado de fertilizantes absorve diretamente a instabilidade geopolítica internacional. Com o barril de petróleo Brent oscilando acima dos US$ 100, os custos de frete marítimo e logística nas rotas globais encareceram os nitrogenados.

A ureia negociada nos portos brasileiros (CFR Brasil) subiu para US$ 470 por tonelada, sendo o único macronutriente com viés de alta no mês. Em contrapartida, o MAP recuou ligeiramente para US$ 830/t e o cloreto de potássio (KCl) cedeu para US$ 355/t sob oferta internacional confortável. De janeiro a setembro, o volume total de adubos importado pelo Brasil somou 28,5 milhões de toneladas — queda de 15,7% frente a 2025 —, sinalizando cautela do produtor nacional diante de margens operacionais mais estreitas.

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