O Sistema FAEP/Senar-PR formalizou, nesta sexta-feira (6), um apelo direto ao Poder Executivo estadual diante da escalada de desastres climáticos que atingem a produção agropecuária. Em ofício enviado ao governador Carlos Massa Ratinho Junior, a entidade propôs a estruturação e implantação emergencial de um Fundo Estadual de Catástrofe voltado especificamente a atender agricultores e pecuaristas atingidos por intempéries severas, como chuvas torrenciais, granizo, vendavais e tornados.
A finalidade central do fundo é garantir liquidez ágil e canalização direta de recursos públicos para recompor a capacidade operacional das propriedades, financiando o restabelecimento de barracões, recomposição de curvas de nível erodidas, reparo ou aquisição de maquinários e compra de novas sementes e insumos para replantio imediato.
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“O produtor rural trabalha a céu aberto e não tem como se proteger de um tornado ou de temporais como os registrados recentemente em todo o Paraná. Nestes casos, os agricultores e pecuaristas precisam de uma resposta rápida do Estado para voltar a produzir. Um fundo estruturado, com recursos garantidos, é o caminho para que essa ajuda chegue sem burocracia”, sustenta o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette.
Estatísticas da Defesa Civil Estadual embasam a urgência do pleito: apenas nos seis primeiros dias de novembro de 2026, foram registradas 94 ocorrências de eventos climáticos críticos distribuídas por 87 municípios, contabilizando prejuízos materiais de R$ 38,4 milhões e afetando mais de 30 mil cidadãos. No meio rural, as lavouras de inverno já somam quebra média de 25% de produtividade, enquanto a safra de verão recém-instalada sofre com alagamentos e necessidade de replantio forçado.
O documento remetido ao Palácio Iguaçu faz ainda um alerta macroeconômico: os R$ 14 bilhões registrados em saldo problemático do crédito rural dentro do Paraná tendem a inflar expressivamente com as novas perdas. “Estamos perdendo décadas de avanços em sistemas de produção qualificados em questão de meses. Precisamos urgentemente de um plano estruturado que minimamente permita recompor o setor diante de perdas sucessivas”, adverte Meneguette.
Devastação no Norte Pioneiro e Centro-Norte
Os impactos de campo revelam danos severos ao patrimônio físico do meio rural. No Norte Pioneiro, o município de Ribeirão Claro registrou índices pluviométricos superiores a 200 milímetros em menos de 24 horas entre 4 e 5 de novembro. O presidente do Sindicato Rural local, Marcos Minghini Loureiro, relatou destruição de terraços e curvas de nível de 1,70 metro de altura, morte de plantas de milho por anoxia radicular e interdição da ponte estadual que liga a Carlópolis.
“O que mais dói é ver erosão, porque é o seu patrimônio que vai embora e nunca mais volta”, pontua Minghini, ressaltando que o fundo estadual é vital para desatar o nó da reconstrução de acessos vicinais.
Em Santo Antônio da Platina, o presidente do Sindicato Rural, José Afonso Júnior, detalha que o transbordamento de córregos cobriu a ponte que corta o bairro rural Água Branca, ilhando famílias e interrompendo o fluxo essencial de caminhões de leite, carretas de ração para granjas e transporte escolar. “Se o Estado tiver uma reserva para apoiar os municípios e as áreas rurais que sofrem com situações como essas, agilizaria. Quando tem que depender de licitação e toda essa burocracia, vai meses até liberar, e aí o produtor já teve prejuízo irreversível”, lamenta.
No Norte Central, em Astorga, o vendaval ocorrido em 2 de novembro destelhou dezenas de galpões e dilacerou lavouras jovens de soja no distrito de Tupinambá. O líder sindical Júlio Toshimitsu ressaltou que a lentidão na vistoria de peritos das seguradoras privadas atrasa a liberação dos talhões para a ressemeadura, encurtando perigosamente a janela agronômica da safra.
Lições do tornado no Centro-Sul
A proposta da FAEP busca também reparar distorções institucionais como a ocorrida há um ano após a passagem de um violento tornado pela região Centro-Sul do Estado. Na ocasião, cerca de 600 propriedades rurais sofreram destruição generalizada em múltiplos municípios, mas apenas Rio Bonito do Iguaçu decretou estado de calamidade pública, tornando-se o único polo amparado por socorros estaduais. Produtores de municípios vizinhos igualmente devastados — como Laranjeiras do Sul, Virmond, Porto Barreiro e Candói — ficaram completamente desassistidos, recorda o presidente do Sindicato Rural de Laranjeiras do Sul, Eliseu Fernando Telli.
“O que vivemos em Rio Bonito do Iguaçu e o que vemos agora em tantas regiões do Paraná mostra que o produtor não pode depender de a situação ser enquadrada em critérios burocráticos para ser socorrido. Com um fundo, o apoio fica previsto, e o setor consegue se reerguer mais rápido. Os efeitos da perda de capacidade produtiva são sentidos por toda a sociedade paranaense, não só pelo campo”, arremata Ágide Meneguette.
