Biometano pode ser substituto do diesel e gerar economia de até 20%
Produzido a partir de dejetos animais e resíduos agroindustriais, combustível renovável pode reduzir custos no campo e diminuir a dependência do diesel.
Com o diesel pressionando os custos da produção agrícola, o biometano ganha espaço como alternativa energética no campo. Produzido a partir da biodigestão de dejetos animais e resíduos agroindustriais, o combustível renovável pode ter retorno do investimento em cerca de 36 meses, além de reduzir em até 90% as emissões de dióxido de carbono em comparação ao diesel.
O tema volta ao debate em meio à recente alta do combustível, impulsionada por tensões geopolíticas e oscilações do mercado internacional. Para o coordenador de energias renováveis do IDR-Paraná, Herlon Goelzer Almeida, a busca por alternativas ao diesel já vinha sendo discutida desde a pandemia, quando o preço do combustível passou a seguir as cotações internacionais.
Segundo ele, o movimento lembra o que ocorreu com o etanol no passado. “Assim como o Brasil adotou o álcool como alternativa para reduzir o impacto do preço da gasolina, agora é necessário pensar em opções também para o diesel, principalmente na agricultura”, afirma.
Produção a partir de resíduos - O biometano é obtido a partir da purificação do biogás gerado no processo de decomposição de matéria orgânica. Após a filtragem, o combustível alcança concentração superior a 93% de metano, o que permite sua utilização com características semelhantes às do Gás Natural Veicular (GNV).
A diferença é que, enquanto o GNV tem origem fóssil, o biometano é considerado uma fonte renovável, já que é produzido a partir de resíduos orgânicos. Na prática, isso permite transformar dejetos da produção pecuária ou resíduos agroindustriais em energia.
Para propriedades rurais com produção de suínos, aves ou bovinos, por exemplo, os biodigestores podem gerar combustível suficiente para abastecer veículos e gerar eletricidade.
Economia no transporte - O uso do biometano tem sido mais comum em caminhões de carga pesada, mas também pode ser aplicado em veículos leves. Há duas possibilidades: adquirir veículos já preparados para o combustível ou adaptar motores existentes.
O investimento para conversão de caminhões gira em torno de R$ 60 mil, com prazo de retorno estimado entre 15 e 25 meses, dependendo do volume de uso do veículo. Em média, a economia no consumo de combustível pode ficar entre 15% e 20%.
Um exemplo vem de Toledo, no oeste do Paraná, onde o Celso Rosa Junior, presidente do Sindicato das Transportadoras de Toledo e proprietário de transportadora, adaptou um de seus caminhões para operar com biometano. Antes da conversão, o veículo apresentava autonomia média de 2,09 km por litro de diesel. Após a mudança, a autonomia passou para 2,30 km por equivalente energético do combustível. “A rentabilidade já era muito viável, neste momento de alta do diesel, será ainda mais. Neste mês vamos iniciar com o segundo caminhão a biometano”, afirma.
Júnior também destacou a questão ambiental do uso do biocombustível, pois ajuda os produtores a resolver um passivo ambiental que é o descarte de dejetos. “A região de Toledo tem o maior plantel de suínos vivos do Brasil, temos um papel fundamental no incentivo à produção”, concluiu.
Incentivo no Paraná - No estado, o programa RenovaPR, do Governo do Paraná, incentiva a adoção de sistemas de geração de energia no meio rural, incluindo biodigestores para produção de biogás e biometano.
A iniciativa prevê que o governo subsidie 5 pontos percentuais da taxa de juros dos financiamentos para implantação dos sistemas. Dependendo das condições do crédito, o produtor pode acessar financiamentos com juros próximos de zero, o que acelera o retorno do investimento.
O programa atende pequenos, médios e grandes produtores, além de agroindústrias que utilizam crédito rural. Quando o volume de resíduos não é suficiente para viabilizar o projeto individualmente, também é possível implantar sistemas de forma coletiva, reunindo diferentes propriedades.
Para especialistas, a combinação entre geração de energia própria, redução de custos e menor dependência do diesel pode ampliar o uso do biometano no campo nos próximos anos.