Diesel até R$ 2,50 mais caro preocupa produtores em plena colheita de soja
Atualizado em 13/03/2026 às 10:35:19
Alta no combustível já supera R$ 1,00 nas distribuidoras e chega a R$ 2,50 no interior do Paraná, pressionando custos de produção e transporte no agronegócio.
De acordo com o Paranapetro, o preço do diesel pago pelas distribuidoras já registra aumentos superiores a R$ 1,00 por litro desde a última semana. Já especialistas da Federação da Agricultura do Paraná (FAEP) relatam casos de produtores pagando até R$ 2,50 a mais no combustível no interior do Estado. A alta, associada às tensões no Oriente Médio, começa a preocupar produtores rurais e pode elevar os custos de produção e transporte no agronegócio brasileiro.
Segundo Luiz Eliezer Ferreira, técnico do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema FAEP, a situação está ligada ao cenário internacional, especialmente às tensões no Oriente Médio, que influenciam o mercado de combustíveis. “O conflito no Oriente Médio já está impactando a nossa agropecuária aqui no Paraná. Temos relatos do interior de aumento de R$ 2,50 no litro do diesel, além de falta do produto em alguns locais”, afirma.
De acordo com o Paranapetro, as distribuidoras já vêm repassando aumentos expressivos ao mercado. Como o diesel é o principal combustível utilizado na agropecuária e na logística de escoamento da produção, a tendência é que o impacto chegue rapidamente ao campo e, consequentemente, ao preço final dos alimentos.
Empresas do setor apontam que a instabilidade internacional influencia diretamente o mercado brasileiro. O país ainda depende de importações para suprir parte da demanda, já que não é autossuficiente no refino de combustíveis, o que torna os preços mais sensíveis a crises externas.
Dependência energética no campo -O peso do diesel na atividade rural é significativo. Levantamento do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema FAEP mostra que 73% da energia utilizada na agropecuária brasileira vem de combustíveis fósseis, principalmente o diesel. O combustível movimenta tratores, colheitadeiras e outros equipamentos agrícolas, além de sustentar boa parte da logística de transporte da produção. Por isso, qualquer variação no preço tende a ser rapidamente sentida pelo setor.
Além do uso dentro das propriedades, o diesel é fundamental para o escoamento da safra. No Brasil, mais de 60% das cargas são transportadas por rodovias, incluindo grãos, fertilizantes, ração e outros insumos usados na produção agropecuária.
Impacto direto na colheita da soja -O problema surge em um momento estratégico para o campo. Com a colheita da soja avançando, a demanda por combustível é elevada, já que máquinas agrícolas operam intensamente nas lavouras e no transporte da produção. “Esse aumento e a escassez do diesel chegam em um momento muito importante da agropecuária. As máquinas estão no campo colhendo a soja e plantando milho, e a falta de combustível pode comprometer operações e até a qualidade da produção”, explica Luiz Eliezer Ferreira.
De acordo com o último acompanhamento de safra divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a colheita da soja da safra 2025/26 já alcançou 50,6% da área plantada no Brasil.
Repasse do custo e reflexo no varejo - Outro fator que preocupa o setor é a dificuldade de repassar o aumento de custos. No caso da soja, por exemplo, o valor pago ao produtor é definido pelo mercado internacional, o que limita a capacidade de compensar gastos maiores com insumos e logística. “O produtor é tomador de preço. O valor da soja é formado no mercado internacional, então ele não consegue transferir esse aumento do diesel para o preço do produto que entrega à cooperativa ou à indústria”, afirma Ferreira.
Porém, segundo Ferreira, o encarecimento do combustível tende a se espalhar por toda a cadeia produtiva. “Esse aumento deve permear toda a cadeia. Em algum momento, transportadores e indústrias que tiverem aumento de custo com diesel acabam repassando isso para os próximos elos, até chegar ao consumidor final, explica”.
Setor propõe medidas para reduzir impacto -Diante do cenário, entidades do agronegócio vêm discutindo alternativas para reduzir a dependência externa e evitar problemas de abastecimento. Uma das iniciativas foi um manifesto assinado por diferentes setores do agro que propõe ao governo federal o aumento da mistura obrigatória de biodiesel no diesel de 15% para 17% (B17). O documento foi elaborado pelo Instituto Pensar Agropecuária (IPA).
Segundo as entidades, a medida pode fortalecer a segurança energética do país, reduzir riscos de desabastecimento e aumentar a previsibilidade para produtores rurais, especialmente em um momento estratégico para o escoamento da safra.
Outra frente de atuação envolve a carga tributária sobre o combustível. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) solicitou ao Ministério da Fazenda e ao Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) a redução temporária de tributos federais e estaduais incidentes sobre o diesel.
Entre os impostos citados estão PIS, Pasep e Cofins, que juntos representam cerca de 10,5% do valor do combustível, além do ICMS, cuja participação média pode chegar a 38,4% do preço final.