Cigarrinha causa prejuízo de US$ 25,8 bi em 4 anos no Brasil
Estudo aponta perdas médias de 31,8 milhões de toneladas por ano e aumento no custo de produção com controle da praga
Perdas médias de 22,7% na produção de milho entre 2020 e 2024 resultaram em um prejuízo anual de US$ 6,5 bilhões ao Brasil, segundo estudo que quantificou o impacto da cigarrinha-do-milho e dos enfezamentos na cultura. No acumulado de quatro safras, o rombo chega a US$ 25,8 bilhões, com cerca de 2 bilhões de sacas que deixaram de ser colhidas.
O levantamento mostra que o problema deixou de ser pontual e passou a afetar de forma estrutural o sistema produtivo do milho no País — cenário que acende o alerta para produtores, especialmente em regiões com forte presença da safrinha, como o Paraná.
Com base em dados históricos da Conab e em levantamentos realizados em 34 municípios das principais regiões produtoras, o estudo indica que a cigarrinha e os enfezamentos estiveram entre os principais fatores de queda de produtividade em cerca de 80% das áreas avaliadas.
Impacto direto no campo
Na prática, os números refletem perda direta de renda no campo. Além da quebra de produção, o produtor passou a gastar mais para tentar conter a praga, sem garantia de eficiência total no controle.
Entre as safras analisadas, o custo com inseticidas aumentou 19%, superando US$ 9 por hectare. Mesmo com esse avanço nos gastos, o controle exclusivamente químico não tem sido suficiente para evitar perdas relevantes.
A safra 2020/21 concentrou o maior impacto, com quebra de 28,9%. Já em 2023/24, a perda foi menor, de 16,7%, indicando avanço no manejo, mas ainda longe de um cenário de estabilidade.
Ao longo dos quatro anos, o País deixou de produzir, em média, 31,8 milhões de toneladas de milho por safra, volume que pressiona o abastecimento interno e reduz o potencial de exportação.
A principal ameaça ao milho
Os enfezamentos, nas formas pálida e vermelha, se consolidaram como o principal problema fitossanitário da cultura no Brasil.
Transmitidos pela cigarrinha-do-milho, esses patógenos podem comprometer totalmente a lavoura, principalmente quando há uso de híbridos mais suscetíveis.
O avanço da praga está diretamente ligado às mudanças no sistema produtivo. A expansão da segunda safra e o cultivo praticamente contínuo do milho ao longo do ano criaram condições ideais para a sobrevivência do inseto e dos patógenos.
Sem tratamento curativo eficaz, o produtor fica mais dependente de estratégias preventivas, o que aumenta a complexidade do manejo e exige maior planejamento da safra.
Manejo exige estratégia integrada
Diante desse cenário, o controle da cigarrinha exige uma abordagem conjunta entre produtores e regiões. Especialistas destacam que medidas isoladas tendem a ter efeito limitado, o que reforça a necessidade de um manejo integrado ao longo de todo o ciclo produtivo.
Na prática, isso envolve a eliminação do milho tiguera na entressafra para interromper o ciclo da praga, a sincronização do plantio para reduzir a movimentação da cigarrinha entre áreas e o uso de híbridos mais tolerantes. Também ganha importância o manejo precoce, com aplicações iniciais de controle químico e biológico ainda nos primeiros estádios da lavoura, além do monitoramento constante para tomada de decisão rápida.
O controle biológico, com uso de fungos entomopatogênicos, também vem ganhando espaço como alternativa complementar, principalmente diante de relatos de resistência da cigarrinha a determinados grupos de inseticidas.
Reflexos no mercado e na cadeia do agro
Os impactos vão além da lavoura. Como o milho é base para a produção de ração animal e biocombustíveis, as perdas afetam diretamente os custos de cadeias como aves, suínos e leite.
Com o Brasil entre os maiores produtores e exportadores globais, quebras dessa magnitude comprometem a competitividade e podem influenciar preços tanto no mercado interno quanto no externo.
A estimativa atual aponta para uma produção de 138,4 milhões de toneladas na safra 2025/26. Ainda assim, o avanço da cigarrinha segue como um dos principais fatores de risco para o desempenho da cultura.
A mensuração dos prejuízos também abre espaço para discussões mais técnicas sobre políticas públicas voltadas ao setor. Com dados mais consistentes, o mercado passa a ter base para aprimorar o seguro rural, definir melhor as janelas de plantio e direcionar investimentos em pesquisa e manejo.